“Futebol de Formação” sem “Ética Desportiva” será “Formação Desportiva”?


Ao analisar a monografia de licenciatura em Desporto e Educação Física “A Competição no Processo de Formação dos Jovens Futebolistas em Portugal”, de Andreia Pereira, orientada pelo Professor Jorge Pinto, da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, verificamos que “a Formação Desportiva se refere a um processo globalizante, que visa não só o desenvolvimento das capacidades específicas (físicas, táctico-técnicas e psíquicas) do futebol, como também a criação de hábitos desportivos, a melhoria da saúde, bem como a aquisição de um conjunto de valores, como a responsabilidade, a solidariedade e a cooperação, que contribuam para uma formação integral dos jovens.”

Relativamente à “Ética”, o seu significado é muito simples: “aquilo que pertence ao carácter” pelo que o conceito “Ética Desportiva” representa uma estrutura moral que define alguns limites para o comportamento dos Agentes Desportivos, de forma a preservar um sistema civilizado.

Nesse sentido, e dando cumprimento ao desafio do Código de Ética no Desporto do Conselho da Europa, para que os estados membros da UE criassem os seus códigos de ética desportiva, nasce em 2012 – Ano Nacional da Ética no Desporto, por iniciativa do XIX Governo Constitucional, e no âmbito do PNED, o “Código de Ética Desportiva”. Nele estão vertidas as normas de conduta que devem orientar a acção dos diferentes intervenientes no desporto, sejam os poderes tutelares, os praticantes, os professores, a Escola, os treinadores, os juízes e árbitros, os dirigentes, os agentes, os pais e encarregados de educação, os médicos e demais profissionais de saúde, as entidades e organizações desportivas, os espectadores e os meios de comunicação social, onde se destaca a referência aos “Valores da Ética Desportiva”:

O desporto, pela sua natureza, possibilita e potencia o exercício e desenvolvimento de valores pessoais e sociais. Valores esses que quando aplicados no e pelo desporto, facilmente são transpostos para o dia-a-dia de cada um de nós.

Importa ter em consideração que para além de um conjunto de valores comuns a todos os cidadãos, há valores que, pela sua natureza, são inerentes à prática desportiva, nomeadamente: o respeito pelas regras e pelo adversário, árbitro ou juiz; o fairplay ou jogo limpo; a tolerância; a amizade; a verdade; a aceitação do resultado; o reconhecimento da dignidade da pessoa humana; o saber ser e estar; a persistência; a disciplina; a socialização; os hábitos de vida saudável; a interajuda; a responsabilidade; a honestidade; a humildade; a lealdade; o respeito pelo corpo; a imparcialidade; a cooperação e a defesa da inclusão social em todas as vertentes.”

Analisando o anteriormente referido, facilmente chegamos à conclusão que futebol de formação sem ética desportiva não contribui para a formação de jovens responsáveis e intervenientes de forma positiva na sociedade. É importante compreender que o espírito desportivo é essencial para o êxito da promoção/desenvolvimento do desporto e consequentemente, para o individuo, as organizações desportivas e a sociedade.

Um desporto baseado nos princípios da ética será, para todos os que nele participam, mais apelativo, motivador, realizador e útil.

Perante este processo social de “Desporto com Ética”, o árbitro é um parceiro integrante de toda a competição desportiva, pelo que toda e qualquer intervenção que tenha, tem um alcance pedagógico, na medida em que representa uma indicação objectiva e clara quanto às condutas desportivas que vão ser tidas por válidas durante as competições desportivas. No desempenho da sua função, utiliza os cartões amarelo e vermelho como forma de comunicar a todos os agentes desportivos e público, quando existirem comportamentos incorrectos.

In Jornal Record – Foto: Rui Minderico

 

Em 2015, e aproveitando essa ferramenta de comunicação, o PNED decidiu implementar um cartão pedagógico – “Cartão Branco”, a aplicar preferencialmente nos escalões de formação e que visava enaltecer condutas eticamente corretas, promovendo o Fairplay e o desporto com valores, no qual a formação dos jovens atletas supere a mera competição e o ganhar a todo o custo. Desta forma o árbitro passou a ser um agente promotor dos comportamentos éticos, exibindo esse cartão aos atletas, dirigentes, e demais agentes desportivos, bem como, aos espectadores, sempre que observe um comportamento merecedor desse reconhecimento público.

Actualmente, o cartão branco é utilizado em várias modalidades e no futebol, nas Associações de Aveiro, Leiria, Lisboa, Santarém e Setúbal, com excelentes resultados.

O “Futebol de Formação” acredita verdadeiramente que o cartão branco potencia a prática de comportamentos éticos, contribuindo para que todos os agentes envolvidos nos escalões de formação (principalmente os Pais), entendam que a “cultura desportiva” só é uma realidade se for sustentada por princípios éticos e pelos valores positivos do desporto. Cabe-nos aceitar, zelar e cumprir todas as regras de natureza ética, comportando-nos com a consciência que somos um exemplo e uma referência para os jovens atletas, pelo que temos a obrigação de participar activamente no processo de divulgação da ética desportiva, com a preocupação de dar a conhecer aos jovens atletas esses valores e princípios, transversais à vida na sociedade e determinantes para seu futuro enquanto cidadãos.

CARTÃO BRANCO / FAIRPLAY NORMAS DO CARTÃO BRANCO/FAIRPLAY

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