A Importância da Formação e da Continuidade!


I. Introdução

Ter um projeto estruturado é o caminho a seguir por parte dos clubes no futebol, mas saber que o projecto tem continuidade é o desafio para a classe dos seus dirigentes. Existindo uma boa ideia na qual se acredita e confia, onde tudo gira em torno dessa ideia, é uma boa prática e facilita a integração de qualquer pessoa que chegue de novo e adere ao projeto e torna-se extremamente fácil transmitir-lhe o objetivo, o que se pretende e o que é relevante. É fácil incorporar-se numa direção com ideias claras.

Imaginemos que após eleições os novos dirigentes do FC Barcelona alteravam a sua filosofia de formação, processos e a política desportiva do clube das duas últimas décadas, será que os resultados desportivos no futebol sénior viriam a ser idênticos ao que foram? O sucesso desportivo coletivo e a valorização individual dos seus atletas oriundos das camadas jovens? E todas seleções de futebol espanholas nos vários escalões com títulos europeus e mundiais que aderiram ao mesmo modelo?

Clubes como o Barcelona ou o Ajax têm projetos, pilares e continuidade. Estes conceitos não fazem referência só ao futebol profissional, tendo as suas bases e pilares assentes na formação, mas também à filosofia e valores do clube.

Com isto é fundamental que os clubes em Portugal, independente da sua dimensão ou estatuto, estejam estruturados e organizados a nível diretivo e dos seus projetos, e que as mudanças diretivas saibam dar Continuidade aos projetos válidos e com valores sociais e desportivos para os clubes que representam.

Apesar de não existir um conceito/modelo suficientemente robusto de sucesso, que seja consensual, uma formula certa para a formação, parece-me que é inequívoco que a Formação é a base e que neste domínio o processo formativo de ensino-aprendizagem se assume como o “ADN” do processo quer seja ele escolar ou desportivo.

II. Formação = Continuidade

Ninguém chega a Professor, Engenheiro, Médico ou profissional de outras áreas sem fazer o seu percurso formativo em continuidade ou Formação Especifica. O Sistema Educativo Português está organizado em níveis de educação, formação e aprendizagem: a educação pré-escolar, o ensino básico, o ensino secundário e o ensino superior.

Sistema Educativo Português
Será que no Desporto em geral e especificamente no Futebol é diferente?

Não o é de certeza absoluta!

Associado a este conceito de formação, estão atualmente as Escolas/Academias de Futebol de cada clube, que deverão ter como objetivos a realização de atividades mais formais e regulamentadas sem a exigência de saltarem etapas no processo formativo procurando obter a sua certificação. Neste processo surge de forma imperativa que na formação do jogador a sua evolução seja de acordo com as suas capacidades e com um enquadramento ao nível do treino, do jogo, para que dessa forma a sua formação

Tipos de futebol

seja gradual e contínua.

É necessário e fundamental respeitar a evolução dos atletas, de forma que a formação seja gradual e com objetivos a longo prazo, não “queimando” etapas que mais tarde podem ser muito importantes para os seus desempenhos. O processo de formação deve respeitar uma sequência de 3 etapas formativas, adequadas ao nível das variantes do jogo (tipo de futebol 3-5-7-9-11, numero de jogadores, espaço e tempo de jogo), essas etapas são:

  • Etapa Pré-Formativa, dos 5 aos 8 anos de idade, Escalão de Juniores G (Petizes) em Futebol 3 e Escalão de Juniores F (Traquinas) em Futebol 5
  • Etapa de Iniciação, dos 8 aos 10 anos, Escalão de Juniores E (Bejamins) em Futebol 7 e dos 10 aos 12 anos, Escalão de Juniores D (Infantis) em Futebol 9
  • Etapa de Especialização, dos 12 aos 14 anos, Escalão de Juniores C (Iniciados) e dos 14 aos 16 anos, Escalão de Juniores B (Juvenis) e dos 16 aos 18 anos, Escalão de Juniores A (Juniores) em Futebol 11

“É fundamental compreendermos, de uma forma clara, que o futebol de formação é uma escola de jogadores de futebol. Assim como a escola tradicional pretende dar uma formação cultural e académica aos cidadãos para que mais tarde possam vir a ser integrados na vida ativa, a escola de futebol pretende dar uma formação adequada aos jovens futebolistas, para que mais tarde possam via a integrar equipas seniores.” Pacheco 2001

Em qualquer dos casos, está em causa a formação educativa, escolar, cultural, social e desportiva de crianças e jovens, sendo esta formação bastante complexa, multivariada e extremamente dinâmica.

“A natureza ordenou que os jovens sejam jovens antes de serem adultos. Se pretendemos alterar esta ordem, produziremos só frutos verdes sem sumo” Jean Jacques Rousseau (cit. por Pacheco, 2001)

Desta forma e neste conceito não podemos desassociar dois dos principais intervenientes no processo formativo de jovens atletas, que são:

Os Dirigentes, porque definem os destinos dos clubes, a sua gestão financeira, económica e desportiva, o seu posicionamento perante a política desportiva, os seus projetos sociais e desportivos e a viabilidade dos mesmos, que muito dependem da sua estrutura diretiva e nas escolhas que fazem para a coordenação da formação (Coordenadores) e respetivas equipas técnicas (Treinadores) no enquadramento das mesmas por escalão de formação (Iniciação/Pré-Competição e Competição).

Para o desenvolvimento dos próprios clubes e organizações do futebol é necessário e urgente haver formação específica para dirigentes desportivos sejam eles amadores ou profissionais.

A continuidade da existência num futuro próximo dos próprios clubes e organizações, depende da formação dos seus dirigentes, das suas lideranças com capacidades de iniciativa e conhecimentos, presença e responsabilidade, agindo de forma sistémica e reunindo os recursos necessários, envolvendo todos num esforço contínuo de desenvolvimento pessoal e formativo para encontrar e ajustar as melhores respostas às necessidades da sua organização.

Os Treinadores, porque são os líderes da sua equipa, são eles os formadores em cada etapa do processo formativo, definem e trabalham para capacitar os jovens atletas das ferramentas necessárias à sua evolução e superação num contexto individual e coletivo em cada etapa, transmitido valores essenciais à sua formação enquanto desportista e ser humano.

Um enquadramento correto dos Treinadores por parte da coordenação da formação dos clubes é essencial, mas para isso é necessário que cada um defina o seu próprio perfil em termos de experiencia, conhecimento, objetivos e preferências de forma a se sentir realizado com o escalão que treina, evoluindo nos seus conhecimentos também através de uma formação continua e especializada.

Perfis / Competências Treinador/a

Neste contexto, em Portugal, no paradigma ao nível da formação de treinadores houve melhorias significativas na última década e meia por parte das entidades estatais e organismos do futebol, com a abertura e a realização de vários cursos a nível nacional e na definição do Programa Nacional de Formação de Treinadores (PNFT), que contempla a existência de Formação Contínua para efeitos de revalidação do Título Profissional de Treinador de Desporto (TPTD). Esta situação exige que o/a treinador/a comprove a realização de um conjunto de ações de formação realizadas ao longo dos 5 anos de validade do TPTD, o PNFT considera a existência de 4 graus de qualificação com responsabilidades e competências próprias.

No que respeita diretamente ao futebol, os cursos de treinadores de futebol encontram-se agora enquadrados no Programa Nacional de Formação de Treinadores do IPDJ, pelo que a sua estrutura formativa e organizativa sofre alterações profundas para que seja possível cumprir os requisitos legais e, simultaneamente, os pressupostos necessários ao enquadramento UEFA, que são:

  • Curso de Treinador de Futebol Grau I – UEFA “C” Raízes
  • Curso de Treinador de Futebol Grau II – UEFA “B”  Basic
  • Curso de Treinador de Futebol Grau III – UEFA “A”  Advanced
  • Curso de Treinador de Futebol Grau IV – UEFA “PRO”  Professional

Se fizemos um paralelismo entre os graus do curso de treinadores, o enquadramento de competências técnicas com base nos cursos e os seus conteúdos, será que por exemplo o curso de Grau I contempla uma formação adequada ao treinadores para as etapas Pré-Formativa e de Iniciação preparando os treinadores com ferramentas ao nível pedagógico para trabalhar com crianças entre os 5 e os 12 anos, será que aborda o trabalho essencial nestas idades ao nível do desenvolvimento das capacidades motoras e físicas adequadas, e em termos técnicos/tácitos estará adaptado às variantes do jogo e tipos de futebol praticado 3-5-7-9, ou é mesmo uma realidade que se baseia tão e somente para a prática essencialmente do Futebol 11.

“O futebol juvenil tem impressões digitais próprias, isto é, possui características que lhe dão autonomia peculiar, o que pressupõe, evidentemente, uma metodologia que se identifique com as suas necessidades e particularidades” Leal & Quinta, 2001

III. Conclusão, Os egos no futebol.

Quando começamos a analisar este tipo de temáticas no futebol, deparamo-nos com um grupo humano muito diferente a nível de personalidades e de interesses.

Temos Dirigentes, Diretores, Coordenadores, Treinadores, Árbitros, Atletas, Pais entre outros que fazem todos eles parte integrante do processo formativo de jovens atletas, essas mesmas pessoas procuram o mesmo fim comum, mas será que estamos todos alinhados procurando o melhor para a evolução do Futebol em Portugal com base na sua Formação e Continuidade coletiva, sim porque o futebol “é” e tem de ser um desporto coletivo dentro e fora das quatro linhas, para que os projetos e processos funcionem e tenham a sua evolução tal como as pessoas individualmente nas suas carreiras profissionais.

Estamos longe disso porque não temos uma Cultura Desportiva com raízes sólidas assentes na educação e valores a partir da base, que permita uma mudança de mentalidades fora do egocentrismo institucionalizado no “Mundo do Futebol” seja ele Profissional ou Amador.

Desta forma cabe-nos a nós todos definir os objetivos para uma boa formação, onde devemos ter sempre em conta todos os seus intervenientes de forma estruturada num projeto a longo prazo, em que seja possível programar uma formação global, gradual e específica dos Dirigentes, Diretores, Coordenadores, Treinadores, Árbitros, Pais e dos Atletas, criando uma cultura Desportiva com base numa melhor Formação e Continuidade nos caminhos para a evolução do Futebol.

Resumindo, na minha opinião, a formação de dirigentes em Portugal é urgente para a melhoria de todos os clubes, em áreas especificas como a Gestão e Financeira, Gestão Desportiva, Comunicação/Marketing e Social, sob pena de na próxima década muitos deles não sobreviverem por incapacidade e falta de condições. Não esqueçamos que o associativismo no nosso país quase desapareceu e que grande parte dos clubes nas suas atuais estruturas diretivas recorrem aos pais dos atletas para funções de delegados/diretores de equipa não se envolvendo na vida ativa dos clubes.

O nível de competência dos treinadores em Portugal é bom, mas a sua formação e especialização têm de ser revistas, em linha com a própria pirâmide do futebol apresentada pela UEFA e de acordo com as 3 etapas formativas, os conteúdos formativos dos cursos de treinadores devem ser adequados a cada etapa.

Se fizermos um enquadramento com a pirâmide do futebol teríamos algo deste género:

Enquadramento curso Treinador com a pirâmide do futebol

Formar é construir o futuro!

Todos nós pela Continuidade do Futebol de Formação!

“Não se pode aprender apenas mecanizando e repetindo gestos técnicos (…) é fundamental que a criança desabroche, desenvolva dons e dê asas ao seu talento” Host Wein, 2006

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Euroguidance, Direcção-Geral da Educação, 2017

Programa Nacional de Formação de Treinadores (PNFT), IPDJ, 2017

O ensino do futebol: futebol 7, um jogo de iniciação ao futebol de 11, R. Pacheco, 2001

En vez de dar soluciones a los problemas que se presentan, los formadores deberían dar problemas. Wein, H., 2006

 

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