O homem vem ao mundo com corpo, espírito e coração capaz de desenvolvimento, mas ainda por desenvolver. Pode permanecer por desenvolver, pode ficar sem cuidados; pode ser desenvolvido incorretamente, pode ser malformado. Deve, porém, ser desenvolvido corretamente, deve tornar-se corpo forte e ágil, espírito inteligente e coração moral.” (Bento, J. 1995 p.169)

Iniciando o meu artigo de opinião sobre a importância da formação desportiva na vida de uma pessoa e recorrendo às palavras suprarreferidas por Jorge Olímpio Bento, acredito que a formação desportiva tem um valor multidimensional naquilo que é o desenvolvimento integral de um ser humano. Contudo, a formação desportiva apenas terá repercussões positivas aquando a mesma for realizada de forma contextualizada.

Essa contextualização deve ter-se considerando alguns fatores fundamentais, dos quais ressalto dois que compreendo serem dos mais importantes: – o estágio de desenvolvimento em que o atleta se encontra (relacionado com a sua idade física e psicológica); – e a personalidade do atleta (construída através de todas as vivências que o mesmo teve até ao momento). Tendo em conta estes mesmos fatores, vem a individualização do processo de formação.

O Desporto define-se apenas pela prática de atividade física regulamentada ou será muito mais do que isso?

A formação desportiva tem uma grande importância sobre a aquisição de valores do atleta enquanto ser humano no que diz respeito ao saber ser e saber estar.

As atividades desportivas não se confinam ao resultado atlético, persegue sempre o objetivo do aperfeiçoamento humano, da humanização dos humanos, da modelação, desenvolvimento e formação da personalidade e do seu caráter moral.” (Bento, J. 1995 p.170)

Sem dúvida que “o desporto sempre foi visto como campo de vivência, de transmissão e socialização em valores e princípios humanistas” (Bento, L. 1995 p.243). Na atividade desportiva existe uma relação que é estabelecida entre vários elementos (colegas de equipa, treinadores, dirigentes, árbitros, adeptos, etc.) de forma mais ou menos direta, mas interventiva na vida de todos. E é na sequência destas mesmas vivências que existe influência na construção de um “Eu moral”.

O treinador, no seu papel de líder e responsável máximo do processo de ensino/aprendizagem, deve compreender o Desporto como um meio para a formação de crianças e jovens no sentido de que não importa apenas conhecer o passe, o remate e o drible, mas essencialmente quem desempenha estas mesmas técnicas (i.e., conhecer o ser humano). Dando um exemplo do Desporto de alto rendimento, “a motivação dos líderes-treinadores passa por transformar os seus profissionais em jogadores mais competentes na sua globalidade, como homens, como jogadores, como pais, filhos, amigos, etc. Esta é a motivação que não se paga, que não tem preço, que não tem prémio de jogo.” (Lourenço, L. & Guadalupe, T. 2017 p.50)

A formação desportiva apenas se concretiza em espaços formais (i.e., infraestruturas desportivas)?

(…) recuemos à nossa infância e ao futebol de rua. É verdade que passávamos horas a imitar o drible, o passe, o remate do nosso ídolo (técnica), íamos aprendendo pela vivência prática, e quantas vezes, quem jogava connosco, nos passou conhecimento sobre o jogo no momento de passar, desmarcar, não sai à queima (táctico)?” (Lage, B. 2014)

As palavras proferidas pelo atual treinador do S.L. Benfica fazem-nos pensar sobre como se vivia o futebol há uns anos atrás, em que o número de crianças/jovens na rua a jogar “à bola” era expressamente maior do que na atualidade. E é sobre essa reflexão que importa considerar a importância do “Futebol de Rua” na formação desportiva de um jovem atleta.

Em 2016 saiu uma notícia sobre o Ajax estar a levar os seus atletas com idades compreendidas entre os 7 e os 12 anos para jogar na rua de forma espontânea. Um dos aspetos referidos por Ruben Jongkind (diretor do departamento de desenvolvimento do talento do Ajax) foi “«(..), a superfície é diferente, não é lisa ou plana. Pode haver por exemplo uma pedra mais levantada ou pode o terreno ser desnivelado», «Por isso a bola faz movimentos que não podes prever, o que obriga a adaptar na tua cabeça ferramentas de controlo da bola. A imprevisibilidade obriga as crianças a desenvolverem mais mecanismos técnicos. Isso chama-se motor learning e é uma coisa que não se aprende nos relvados, que é nivelado, igual, direitinho.»

Numa palestra on-line dada recentemente, em que participou o treinador Abel Ferreira, o mesmo abordou a necessidade atual dos defesas laterais terem de subir para criar superioridade numérica, salientando que, com o passar dos tempos, cada vez menos os extremos são criativos e capazes de arriscar no 1×1. 

(…) falamos de Futebol de Rua, a gente jogava! 5 contra 5 na escola, metes paralelos aqui ou pastas acolá (…) mas era jogo, jogo!” (Ferreira, A. 2020)

E é através destas reflexões que sobressai a importância de formar o atleta, no sentido de o fazer crescer enquanto jogador autónomo, capaz de tomar as suas decisões, ajustadas à situação em específico e com criatividade para fazer de um jogo de futebol um espetáculo entusiasta. Nas idades mais jovens, o mais importante será jogar, independentemente do número de jogadores, número de balizas ou até de bolas, importa que eles experienciem o maior número de situações, de forma a desenvolver o seu repertório técnico-tático e recorrendo à sua própria criatividade.

Formar para jogar ou para saber jogar?

Uma coisa que eu ouço muitas vezes os treinadores dizerem é que querem que os jogadores sejam criativos e, portanto, este ser criativo exige um certo grau de liberdade, precisamente na tomada de decisão; o problema é que grande parte dos jogadores, pelo menos no nosso país, é de “aviário”, como costumo dizer: vem das escolinha e vem formatado logo do início; e, se nós formos ver o treino das escolinhas, o que é feito é precisamente o oposto do desenvolvimento da criatividade; portanto, não podemos depois pedir a um jogador com dezassete, dezoito anos, que seja criativo, quando ele foi coartado, desde os seis, sete anos e, portanto, a sua tomada de decisão é muitas vezes, condicionada por isto.” (Silvério, J. cit. por Barbosa, A., 2014 p.77-78)

Atualmente, os atletas de tenra idade são sujeitos a pressões por parte de diferentes pessoas em contexto desportivo, na busca de resultados, que por vezes nem são de ordem classificativa. Esta mesma pressão tem consequências quer no processo de ensino-aprendizagem, quer no estado psicológico do atleta.

O desenvolvimento do atleta deve ter uma progressão natural e saudável. Tal como referido anteriormente, devem-se respeitar os estágios de desenvolvimento em que:

  • Numa fase inicial da formação (5/6 anos): são realizadas atividades que desenvolvam uma ampla base motriz (Fundamental Movement Skills), motivantes e com muito jogo;
  • Posteriormente (7-10 anos): uma progressiva preocupação nos aspetos táticos (Ocupação racional do espaço e Princípios específicos da Ataque e Defesa) e nos aspetos técnicos (relação com bola);
  • Por fim, antes de atingir o estágio de rendimento (11-13 anos): é iniciada a diferenciação de funções, a conceitualização de aspetos táticos, o conhecimento de diferentes métodos defensivos, desmarcações, combinações, etc.

Seguindo a mesma lógica, inicialmente é preciso dar aos atletas os fundamentos da modalidade para que existam jogadores independentes e produtivos, capazes de compreender o jogo e cada uma das situações que ocorrem no respetivo.

Sendo o jogo, caraterizado pela sua aleatoriedade e imprevisibilidade, implica que o jogador tome decisões táticas ajustadas ao momento e, para que o mesmo consiga ter êxito na sua ação, quanto maior for o seu repertório técnico-tático e conhecimento sobre o jogo, mais probabilidades de sucesso terá.

Garganta (1997), afirma que cada ação individual é coordenada com um projeto coletivo, onde os aspetos técnicos, físicos, estratégicos e táticos, se articulam em função das relações de oposição que se estabelecem, na procura de uma atuação eficaz.” (Barbosa, A. 2014 p.78)

Em suma, compreendo que a formação desportiva deva fazer parte das vidas das pessoas, tendo esta, bastante influência no desenvolvimento integral do ser humano. Contudo, o treinador, enquanto agente mais próximo aos jovens atletas, deve também ser formado no sentido de tomar as melhores decisões para criar contextos em que os seus jogadores se tornem atletas e pessoas autónomas e criativas, capazes de mudar o jogo e a vida.

Referências Bibliográficas:

https://maisfutebol.iol.pt/historia/internacional/o-ajax-esta-a-mandar-os-miudos-para-a-rua-literalmente

Bento, J. (1995) O outro lado do desporto. Porto, Portugal.

Barbosa, A. (2014) Os jogos por trás do jogo. Portugal.

Lourenço, L. & Guadalupe, T. (2017) Liderator – A excelência no desporto. Portugal.

Ferrão, B. et al. (2019) O efeito Lage. Portugal.

 

1 Comentário

  1. Avatar
    Gaspar Rodrigues
    28 Abril, 2020
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    Excelente texto! Parabéns!

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