O mote para reunir as ideias para este artigo foi-me dado há uns tempos atrás, por um artigo do grande Professor José Neto, que publicou no site do jornal A Bola “As equipas felizes ganham mais vezes”. Como é seu apanágio, o professor com a sua sábia, simples e quase sempre poética elocução, expôs com mestria e coadjuvado pelas não menos sábias ideias do Professor Manuel Sérgio, que “as equipas felizes ganham mais vezes e com a inestimável e decisiva vantagem de, mesmo perdendo poderem continuar felizes, pois ficam mais disponíveis para em seguida ganhar”. Ainda aludiu que “muitas vezes os níveis de dificuldade nas respostas às exigências da competição, se transformam em força mobilizadora e aglutinadora que, por sua vez, se traduz num enorme empenhamento colectivo onde se vê despertar o sucesso, porque foi vivenciada a felicidade adquirida”.

Fico feliz por alguém com o gabarito do Professor José Neto investir em escrever acerca deste brilhante tema tão abertamente. Parece que o desporto é qualificado somente pela táctica, não obstante a sua importância e por mais que esta funcione como imagem identitária das equipas, e por isso parece-me a mim que faz falta na formação dos treinadores (formal ou informal), a aprendizagem de uma visão mais holística do “ecossistema” onde estão integrados. Este “ecossistema” que é composto pelos agentes que funcionam numa equipa, em prol da busca de um ou mais objectivos, suportado por todos os factores e dimensões integrantes: física, técnica, táctica e mental, racional, emocional, individual e colectivo, social, humano e espiritual.

Cabe a todos os elementos de uma equipa a responsabilidade de alimentar e investir nas relações mutuamente, por forma a construir uma causa inspiradora que irá alimentar o espírito colectivo e a motivação, em alinhamento com suas as metas e os seus objectivos. O bem-estar nas equipas é da responsabilidade de todos mas o líder tem um papel fundamental na propagação e contágio emocional deste fenómeno colectivo. A melhoria do desempenho está directamente ligada. Tanto a performance como o contágio emocional têm uma grande influência nas emoções positivas das equipas e o treinador é a figura que gere estas transacções.

O ambiente de equipa intensifica os efeitos dos comportamentos de grupo e, para o bem e para o mal, numa equipa coesa, o contágio existe, os comportamentos e as acções cognitivas disfuncionais na tomada de decisão interferem na qualidade de decisão grupal e a performance baixa. Mais uma vez é no papel do treinador que recai a gestão deste ambiente e desta forma é importante a sua dotação de competências sociais e humanas extra. Extra, porque todos viemos “de fábrica” e desenvolvemos ao longo da vida algumas competências sociais e humanas, através da nossa educação, da aquisição dos nossos valores e da nossa formação. O que acontece é que poderão não ser suficientes para o desempenho com qualidade, de um papel com a importância tremenda que ser treinador tem.

Maslow já dizia que “A grande maioria da humanidade, pela sua necessidade de conexão, quer sentir-se parte integrante de um grupo, de uma causa e ser reconhecido pelas suas habilidades”. Uma equipa que participa no processo de decisão e planeamento faz com que ela se sinta que faz parte integrante. Uma equipa que partilha as dificuldades faz elevar a empatia e a resiliência, e ajuda ao aumento da sua união. Uma equipa com objectivos é bastante mais feliz porque sente que tem um plano.

“O Sucesso não é a chave da Felicidade. A Felicidade é a chave do Sucesso. Se tu adoras aquilo que fazes, tu terás Sucesso.” – Albert Schweitzer

SERÁ QUE EU TENHO UMA EQUIPA FELIZ?

Eu também sou treinador e esta da foto é de uma equipa que eu já liderei. Não vou fazer publicidade nem vou dizer quem eram. Só vou dizer que eram 15 rapazes de 13/14 anos que, apesar de todas as suas dificuldades pessoais, familiares, escolares e outras próprias destas idades, no treino e no jogo eram felizes. Se ganhávamos mais pelo facto de o sermos? Não sei mas no final do campeonato tivemos os resultados esperados e os objectivos cumpridos. E eu só lhes tenho a agradecer por aquilo que me deram: o gozo de os ver jogar, a energia que colocavam no treino e no jogo e que também me alimentava, a garra que transportavam, e o orgulho e honra em ter feito parte de um excelente grupo! Fico feliz por tê-los visto crescer em jogo, através do trabalho que fazíamos no treino e naquilo em que acreditávamos funcionar. Juntos éramos mais fortes e cada jogo encarávamos como uma final. No final de cada jogo éramos felizes se ganhávamos. Éramos felizes quando perdíamos, porque tínhamos a capacidade de persistir e aprender. Éramos felizes a cada remate, que ecoava no murmurinho da excitação da bancada. Éramos felizes porque fazíamos da garra e da capacidade de luta uma forma de dignificar o jogo, o adversário, o nosso clube e as pessoas que nos iam ver. Éramos felizes porque éramos abertos, eramos simples, éramos juntos uma equipa humilde. Éramos felizes porque éramos inteligentes o suficiente para perceber que o mais importante era aquela “extra mile” que fazemos, que os americanos usam muitas vezes para relacionar a superação. Se éramos melhores ou piores não sei. Mas que éramos mais felizes do que muitos, sim! Se eu era melhor ou pior treinador do que outros não sei, mas que era feliz naquele grupo, era!

Da emoção à razão, um equilíbrio deve ser ensinado e aprendido, na minha opinião desde cedo. Isto eu quis ensinar-lhes, na altura em que tinham 13/14 anos. Não só pelo jogo, não só pelos valores colectivos, não só pelas vitórias e pelas derrotas, mas por tudo o que eu podia e conseguia. Cresceram mais completos e fortes, e isso é para mim o meu sucesso. Tudo aquilo que eu lhes pude ensinar, devolveram-me a mim pelo dobro da proporção.

Acho que este tipo de reflexão deveria ser feita por todos os treinadores. Desenvolver a inteligência emocional, que na prática é ganhar a capacidade de reconhecer o que estamos a sentir e saber o que fazer com isso, permite obter uma vantagem mesmo ao nível competitivo: construir uma mentalidade forte, quer individual e colectiva, construir uma grande resiliência e aprender a desfrutar da felicidade encontrada no grupo e nas suas acções. Saber que numa equipa todos são afinal como diz num provérbio italiano: “No final do jogo o rei e o peão voltam para a mesma caixa.”

A NATUREZA DINÂMICA DAS EMOÇÕES DE EQUIPA

Os laços que germinam ao longo do tempo têm um papel relevante na dinâmica das equipas. É urgente que a abordagem predominante das organizações, a filosofia de trabalho dos clubes e dos treinadores seja a de adopção de emoções positivas e experiências impactantes na vida dos atletas, na sua dimensão desportiva.

A consciencialização de que as emoções positivas conduzem a um melhor desempenho, aliado à hipótese de contágio emocional acarreta grandes implicações para o meio da organização, já que o contágio pode servir como catalisador para o sucesso da organização.

Desta forma, torna-se emergente a preparação de líderes para sentirem e exibirem emoções positivas, assim como desenvolver intervenções reservadas à promoção do bem-estar e emoções positivas de equipas. Nunca o líder se deve descartar da responsabilidade de contribuir e servir a sua equipa, e de tentar sempre dinamizar a utilização da emoção para “atestar o depósito” motivacional que alimenta a razão, que por sua vez assegura o foco da equipa nos processos operacionalizados.

Uma equipa capaz de dar a volta a um resultado provavelmente é um equipa feliz. Uma equipa que goleia o adversário respeitosamente e sabe ser humilde é uma equipa feliz.

A felicidade é um estado. Por força do pragmatismo de trazemos para a nossa vida quotidiana, dizemos que somos felizes, mas na verdade estamos felizes. Não estamos sempre felizes pois dessa forma não saberíamos reconhecer a felicidade. Também é importante não estar feliz às vezes. Se a felicidade é um estado então na verdade temos o poder de alterar esse estado quando quisermos e como quisermos. Tudo depende de nós. É difícil relacionar-se dentro de uma equipa. Ou não. Depende dos laços que queremos dar e mesmo se os queremos dar.

De uma forma ou de outra o natural da natureza, passando a redundância, é andarmos em grupo, relacionarmo-nos e trabalharmos em equipa. E se contribuirmos para uma equipa feliz também seremos um indivíduo feliz.

Fonte: https://www.cfmws.com/en/AboutUs/PSP/recreation/ArticleImages/iStock_000017886164Medium.jpg?Mobile=1&Source=%2Fen%2FAboutUs%2FPSP%2Frecreation%2F_layouts%2Fmobile%2Fdispform.aspx%3FList%3D3a4a9ee5-fd5b-4b6c-9459-8480ced3b038%26View%3De3a2755a-ef43-44b3-9629-1ea56e42abd5%26ID%3D38%26CurrentPage%3D1
Foto Fonte: www.cfmws.com

BIBLIOGRAFIA

  • Smith, E.R., Seger, C.R., & Mackie, D.M. (2007). Can emotions be truly group level? Evidence regarding four conceptual criteria. Journal of Personality and Social Psychology, 93 (3), 431–446.
  • Seger, C.R., Smith, E.R., Kinias, Z., & Mackie, D.M. (2009). Knowing how they feel: Perceiving emotions felt by outgroups. Journal of Experimental Social Psychology, 45, 80–89.
  • “As equipas felizes ganham mais vezes “ (artigo de José Neto, 16) – http://www.abola.pt/nnh/ver.aspx?id=576022

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