Grupo Desportivo Estoril Praia, fundado em 17 de Maio de 1939, com sede na Amoreira, Alcabideche, freguesia do concelho de Cascais, distrito de Lisboa, a sua equipa sénior milita na Primeira Liga NOS, nas equipas de formação tem todos os escalões de competição nos Campeonatos Nacionais e os restantes escalões nos campeonatos distritais da Associação Futebol de Lisboa.

Sendo um dos doze clubes em Portugal que tem a sua Academia de Futebol certificada pela Federação Portuguesa Futebol como Entidade Formadora.

Modelo da Formação do Grupo Desportivo Estoril Praia

Qual é a filosofia do Clube em relação à formação?

O processo de formação desportiva no GD Estoril Praia procura respeitar a identidade e individualidade do ser, ou seja, tentamos nos reger pelas etapas do desenvolvimento desportivo do jovem atleta. Queremos que esse respeito se evidencie nos nossos treinos dos diversos escalões. Procuramos não especializar em idades baixas criando situações de multilateralidade no treino por exemplo. Jogar bom futebol e ajudar ao desenvolvimento dos nossos jogadores para nós é tão importante quanto ganhar.

Quantos atletas têm na formação e número de equipas por escalão?

Entre formação e competição temos cerca de 600 atletas, incluindo também as equipas femininas.

Existe uma forma de jogar igual para todas as equipas dos escalões de formação?

A ideia passa por directrizes que são passadas para todos, com princípios definidos. Depois é dada a liberdade aos treinadores para colocarem o seu cunho pessoal, sempre respeitando os princípios do clube. Como é compreensível, não é fácil que exista uma forma igual dado que, cada grupo de trabalho é diferente dos demais, e existem campeonatos com características também diferentes.

Como são os treinos ao nível do futebol infantil e juvenil?

A ideia passa por termos ao nível do treino situações de maior empenhamento motor possível. Não queremos treinos com filas longas de espera, onde um atleta espera muito tempo para puder jogar/treinar. Queremos treinos intensos onde os nossos atletas saiam cansados mas felizes do mesmo. No futebol 7 queremos que eles vivenciem muitas situações de 1X1, 2X2, 3X3, com e sem superioridade numérica também e onde possam existir várias opções ao nível do jogo, de forma a trabalharem a sua tomada de decisão. Numa fase inicial da aprendizagem é importante os atletas trabalharem vários aspectos do jogo sem ter a preocupação do jogo em si. Por vezes existe muita gente a queixar-se da falta do jogador de rua, mas muitas vezes o que acontece é quando eles aparecem a primeira coisa que fazem é castrá-los. O que fazem os treinadores para desenvolver esse jogador de rua ou a sua criatividade?

Existe muito boa gente que procura formar equipas quando deveria formar jogadores. Ninguém na formação forma equipas para as equipas séniores, acho que não se respeita muito a individualidade do atleta. Não estou a dizer com isto que eles devem fazer o que querem e não respeitar ninguém, mas existem comportamentos que eles no campo têm, que por vezes são melhores soluções do que aquelas que por vezes nós pensamos e devemos respeitar isso. Numa fase de especialização existem cuidados claros que se devem ter, mas o que se vê é já desde tenra idade treinadores a quererem que miúdos de 5/6/7/8 anos etc, a quererem jogar à Barcelona. Deixem os miudos jogar e divertirem-se.

Qual é o perfil de jogador definido para a formação e clube?

O perfil de jogador depende muito das idades e posição que se pretende. Não podemos querer ter um jogador feito aos 8/9/10 anos. Terá que ter potencial para ser desenvolvido. Procuramos jogadores competitivos, com qualidade técnica a vários níveis e que tenham um espirito ambicioso, altruista e responsável.

Como são os vossos treinadores enquadrados em termos de perfil por escalão?

Um bom treinador tem que ter uma caracteristica que acho fundamental para se ter sucesso, adaptabilidade. Quem não tiver essa caracteristica vai ter dificuldade, no meu ponto de vista, de ter sucesso. Se assim não for, irá estar só identificado com aquele escalão, aquela equipa ou aquele clube. Os nossos treinadores cada vez mais possuem isso, daí sempre que surge alguma oportunidade de evolução interna estarmos à vontade de a realizar com eles. Este ano provámos isso com a inclusão de muitos dos nossos treinadores da competição na nossa escola de futebol. O crescimento da mesma foi enorme, com o excelente trabalho que eles estão a realizar.

Como é o processo de captação e prospeção?

Críamos há pouco tempo o nosso Departamento de Prospecção. Era uma lacuna que o clube possuía e tínhamos plena consciência da sua importância daí a sua constituição. Temos agora uma pessoa responsável pelo seu processo que, juntamente com outras, identificam potenciais alvos para o clube. Não tenho dúvidas que vamos conseguir ser cada vez mais competitivos neste aspecto.

Nos escalões de formação, Ganhar ou Formar?

Ninguém gosta de perder, mas ganhar não pode ser a todo o custo. Primeiro formar depois se for possível ganhar óptimo, óbvio que formar a ganhar é bom. Mas, quem forma bem, mais vitórias vai obter, mesmo que isso demore a se evidenciar. Mas não pode um processo de evolução ser destruído por uma derrota. Dou um exemplo muito simples, as nossas equipas de futebol 7 estão proibidas de tentar fazer golo directamente no pontapé de saída. Temos atletas que em alguns campos o poderiam fazer, mas que formação lhes estamos a dar?

Quando chegarem ao futebol de 11 vão fazer o mesmo? Tal como os treinadores têm instruções para sempre que possível sair a jogar em situações de pontapé de baliza. Lembro-me de pais a criticarem certas equipas nossas por sofrermos alguns golos no inicio por isto, mas quando eles já estão confortáveis a jogar assim gostam de ver a sua evolução. Pode um golo sofrido, ou uma derrota abalar um processo destes? Pode se o(a) treinador/coordenador/direcção quiser. Como damos essa liberdade de crescimento eles estão à vontade de o fazer. Nunca vamos mandar embora um treinador pelos resultados se verificamos que o processo está a ser bem realizado. Um processo formativo demora anos, as pessoas querem é resultados imediatos.

O clube faz separação entre equipas de formação e competição? Como é feita a integração?

Tentamos cada vez mais aproximar as duas realidades sabendo que existem diferenças que são difíceis de esbater. Os treinos em alguns aspectos não podem ser iguais porque as exigências também não podem ser iguais. Os atletas da nossa escola de futebol que vão mostrando uma evolução interessante são chamados às equipas de competição para se fazer uma avaliação dessa mesma evolução. O que queremos é que eles tenham sucesso e se divirtam, porque uma coisa é ter sucesso num contexto formativo outra é num contexto mais competitivo onde as dificuldades são superiores. Alguns não conseguem reagir em determinados contextos e por vezes não é fácil eles perceberem que ainda têm que continuar a sua evolução. Cabe-nos ajudar na sua integração e caso tenham que voltar à sua equipa, falar-lhes da importância que é eles não desistirem às primeiras dificuldades.

De que forma é feito o acompanhamento de desempenho escolar dos atletas?

Cada vez mais o GD Estoril Praia procura desenvolver o jogador para a vida. Não queremos só nos focar no processo do jogador enquanto atleta desportivo. O desporto tem a possibilidade de formar homens dando-lhes características positivas, que por vezes em certos ambientes familiares não os obtêm. Procuramos formar o homem de amanhã. Só uma percentagem muito infima irá ser jogador profissional, então e os restantes? Procuramos nos focar no processo escolar, procurando saber as suas notas e premiamos os melhores alunos. Não castigamos ninguém por más notas, ao invés, somos uma ajuda junto dos pais nestas alturas e sempre que nos procuram conseguimos ter sucesso no melhoramento do aspecto escolar.

Tal como já referi anteriormente, nós fazemos esse acompanhamento junto dos pais. No final do 1º e 2º período os pais enviam-nos as notas dos filhos. Depois, juntamente com alguns critérios que definimos internamente, os que tiverem melhores notas e forem os melhores nesses critérios, que atenção não são desportivos, são premiados, não monetariamente mas com algumas acções que desenvolvemos.

Que avaliação faz dos quadros competitivos ao nível da formação em Portugal, tem sugestões de melhoramento?

Durante esta época, o clube enviou para a FPF, algumas sugestões minhas que no nosso entender poderiam ajudar a formação em Portugal. São alguns aspectos que penso que poderiam ajudar ao desenvolvimento dos jogadores. Posso dar um pequeno exemplo. No campeonato Nacional de Iniciados existirem substituições volantes. Isto permitiria aos clubes e treinadores terem uma gestão diferente dos seus planteis e também os atletas terem mais tempo de jogo, numa altura crucial do seu desenvolvimento. Óbvio que tudo isto é discutível mas é só uma opinião minha.

Segue o site FDF Futebol de Formação, como avalia o nosso trabalho e ocorre-lhe alguma sugestão?

Quero-vos dar os parabéns pelo vosso trabalho, é importante ter alguém que se preocupe em dar voz a quem pode ajudar ao desenvolvimento das crianças e jovens deste país.

Pedro Alegria - O nosso entrevistado

Data de Nascimento: 09/09/1976
Naturalidade: Barreiro
Clubes representados:  Luso Barreiro, GD Fabril, EFFS, SL Benfica
Cargo: Coordenador Técnico Futebol Formação
Curso/Formação: Licenciatura em Desporto
Clube: Grupo Desportivo Estoril Praia

Website GD Estoril Praia Facebook GD Estoril Praia Formação

Obrigado ao Grupo Desportivo Estoril Praia e ao seu Coordenador da Formação Pedro Alegria por esta entrevista, partilha de conhecimento e pela mensagem que nos deixam, mais conhecedores e enriquecidos sobre o futebol de Formação em Portugal.

Aos nossos leitores esperamos que tenham gostado, e podem deixar uma mensagem ao Coordenador Pedro Alegria nos comentários aqui no site. Obrigado a todos.

2 Comentários

  1. Avatar
    Luís Dias
    9 Junho, 2017
    Responder

    Parabéns pelo conteúdo desta entrevista! Info e conhecimento para todos os que têm contacto com futebol de formação obrigatório na minha opinião.

  2. Avatar
    João Silva
    31 Outubro, 2017
    Responder

    Concordo com tudo menos com a questão de separar formação com competição. “As exigências não são iguais” mas as necessidades são. Por exemplo, estes modelos não fazem distinção:
    1 http://athletics.ca/wp-content/uploads/2015/01/LTAD_EN.pdf

    2. https://youthguidelines.nba.com/

    O atleta da formação tem necessidade, em fase sensível, de desenvolver, certas capacidades. É uma janela de oportunidade que se esgota.
    A aproximação é interessante mas seria ainda mais interessante igualar aspetos qualitativos do treino, no sentido de aposta maxima em formação sabendo que muitas crianças atingem a maturidade muito mais tard e o desenvolvimento do atleta é algo de longo prazo.
    Em resumo, variam os grupos de atletas, mas não os treinos.
    Recordo-me sempre do exemplo Michael Jordan excluído da equipa de competição do liceu, aos 14 anos, altura em que não era ainda um atleta especializado na modalidade (fazia Basebol, Basket, Atletismo e Fut. Americano). Pergunto, não seria justo ele ter um treino igualmente potênciador?
    De resto filosofia e política de desporto fantástica.
    Parabéns.

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