A Aprendizagem do Coletivo no Processo de Formação Desportiva


Introdução

No futebol, como em qualquer outro desporto de equipa, o coletivo – o todo – deve fazer jus à premissa de «ser mais do que a mera soma das partes». Treinadores que marcaram a história do futebol mundial, como Arrigo Sacchi ou Alex Ferguson, há muito que alertaram para a necessidade de não haver ninguém (jogador ou outro agente desportivo) acima da equipa ou mesmo do próprio clube. Neste particular, sir Alex Ferguson deixou bem claro na sua autobiografia que «no momento em que o treinador perder a sua autoridade, deixa de ter um clube. Os jogadores passam a dirigi-lo e estás metido em sarilhos» (2014: 76). Contudo, não é sobre autoridade ou estruturas hierárquicas que versa este artigo. É, antes, sobre compromisso, respeito e, acima de tudo, sobre sentido coletivo. No futebol, o comum é ensinar o passe com a parte interna do pé, a receção orientada, a desmarcação semicircular, a «tabelinha», a contenção, a mobilidade, a concentração e o espaço e, muitas vezes, esquece-se o fundamental: o coletivo. Porque antes de aprender a técnica, a tática e a estratégia do jogo, a criança/jovem deve aprender a conviver socialmente e a agir em função de objetivos comuns. No fundo, este texto alude ao básico da nossa sociedade na forma de uma questão muito simples: como ensinar/aprender a sermos «coletivos» através do processo de formação desportiva?

O antes: dimensão individual

As primeiras etapas de aprendizagem do ser humano são, por necessidade de crescimento e maturação do próprio organismo, de cariz individual. A relação com o corpo, com o envolvimento e com os objetos – no caso, a bola – é uma necessidade da criança para tornar o movimento mais proficiente e económico. De movimentos reflexos, passando por movimentos rudimentares, aos movimentos intencionais e eficientes vão alguns anos de existência. Não se espere de crianças de 6 anos atos altruístas em prol de um bem comum. O significado de «coletivo» assume a forma de meras reticências no consciente do pequeno aprendiz; o jogo de futebol é do tipo «sou eu e a bola». Se o professor/treinador não permitir e estimular o ato individual ou individualismo nestas idades, vai permiti-lo quando? Na idade adulta?

O durante: desenvolvimento do sentido coletivo

A partir dos 7/8 anos de idade, idade na qual o sistema nervoso central adquire uma morfologia similar à idade adulta, começa a haver margem para ensinar e desenvolver o ato coletivo. No entanto, de acordo com Andersen (2003), uma das transições funcionais mais relevantes do cérebro ocorre na adolescência, com o desenvolvimento do raciocínio abstrato, do afeto e respetiva regulação. Por isso, entre os 7 e os 18 anos de idade, é fundamental dotar o jovem desportista de competências sociais e da noção de coletivo/grupo.

Paralelamente ao processo ensino/aprendizagem do jogo e ao treino multilateral (capacidades condicionais e coordenativas), o professor/treinador, os delegados e os dirigentes devem priorizar a aquisição de referências coletivas. A equipa e o clube não podem ser elementos estranhos no processo de formação desportiva. A figura 1 exibe a pirâmide de comprometimento coletivo, na qual as entidades coletivas são colocadas, progressivamente, num patamar mais elevado em relação ao indivíduo, mais próximo da base.

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Figura 1. A pirâmide de comprometimento coletivo (sentido coletivo crescente).

Ainda que o processo deva ser individualizado, equacionando as valências e as necessidades de cada criança/jovem, os objetivos definidos individualmente devem estar subordinados a objetivos coletivos estabelecidos no topo da pirâmide. Se importa desenvolver a ação de passe curto nos escalões de formação de base, é porque o clube pretende que todas as suas equipas pratiquem um futebol apoiado, privilegiando o ataque posicional. Em seguida, deixamos algumas sugestões para fomentar o espírito de grupo na criança/jovem, considerado a equipa e o clube como referências coletivas a respeitar.

EQUIPA:

  • Participar na construção do regulamento interno da equipa;
  • Adotar um grito/lema de equipa que destaque o coletivo em vez do habitual «ganhar, ganhar, ganhar»;
  • Distribuir, rotativamente, tarefas a grupos de crianças/jovens para a gestão e organização do material (p. ex., cones, bolas, coletes, varas, balizas, etc.) para a sessão de treino ou jogo;
  • Promover e premiar a responsabilidade, o respeito e a cooperação no decurso do processo de treino (sistema de pontuação, eleição do jogador do mês, etc.);
  • Incluir as crianças/jovens na definição de objetivos e estratégias coletivas (p. ex., métodos para executar os pontapés de canto);
  • Organizar eventos extra modalidade (paintball, karting, jogos de pista, parques aquáticos, parques temáticos, cinema, etc.) que estimulem o espírito de equipa;
  • Enfatizar a importância de cada um para o sucesso coletivo (p. ex., gravar um jogo e mostrar à equipa filmes de uma jogada ofensiva ou de uma entreajuda defensiva bem conseguidas, etc.).

CLUBE:

  • Dar a conhecer a história, o palmarés e a filosofia do clube;
  • Levar as crianças/jovens a jogos dos seniores ou jogos de outros escalões de formação;
  • Proporcionar a ida de jogadores seniores (os modelos) a treinos das camadas jovens do clube (p. ex., duas vezes por época);
  • Organizar eventos sociais (festas de abertura/encerramento da época, cerimónias, distinções, etc.) que envolvam a participação e o convívio de todas as equipas e staff do clube;
  • Estimular o convívio entre jogadores dos diversos escalões etários através de torneios informais (3-versus-3, 5v5, etc.) com equipas mistas sem, contudo, visar a obtenção de resultados desportivos.

No seio da equipa, a partilha de vivências e conhecimentos tem o condão de tornar as crianças/jovens mais cúmplices, potenciando sinergias comportamentais para o cumprimento de um determinado objetivo comum. Por outro lado, a um nível mais macro (clube), as crianças/jovens veem os jogadores mais velhos como modelos a seguir. O convívio com esses modelos permite que comportamentos e atitudes mais maturos e sociais sejam imitados e colocados em prática em contexto de treino e competição. Não é só a aprendizagem do jogo que sai reforçada, mas, essencialmente, as dinâmicas sociais que se aperfeiçoam mais aceleradamente desde tenra idade. Como é sabido, o exemplo deve partir de cima: «faz o que eu faço!». Infelizmente, a barreira entre os seniores e as camadas jovens ainda é difícil de transpor na maioria dos clubes portugueses.

O depois: dimensão coletiva

Segundo os investigadores Duarte, Araújo, Correia e Davids (2012), as equipas desportivas podem ser conceptualizadas como «superorganismos», agindo funcionalmente através da coordenação interpessoal entre os seus elementos. A partilha de canais de informação e o aperfeiçoamento de interações grupais são fundamentais para que padrões comportamentais integrados emerjam num contexto competitivo em que a adversidade é uma constante. A dinâmica social do coletivo está dependente da partilha de vivências, de cariz geral e/ou específico da modalidade, para que o bem comum possa ser alcançado. O futebol, como qualquer outro desporto coletivo, pode constituir um meio valiosíssimo para o desenvolvimento de competências sociais de crianças e jovens adolescentes. Deste modo, a boa formação desportiva não se deve cingir à aprendizagem de competências específicas do jogo.

Ainda que todos nós gostemos de ver uma equipa coesa, solidária e cooperante a jogar, a percentagem de jovens praticantes que atinge o estatuto de profissional é irrisória. Por isso, os treinadores, os delegados e os dirigentes devem, em primeira instância, focar-se na promoção do sentido coletivo. Conforme foi previamente referido, breves eventos ou ações que enalteçam um ou vários referenciais coletivos (equipa ou clube), podem ter um impacto significativo na perceção e aquisição de comportamentos e atitudes sociais que, a longo prazo, farão da criança/jovem um jogador mais competente e um cidadão mais responsável, respeitador e integrado. É a típica situação win-win (duplo ganho): reforça-se a dinâmica coletiva na modalidade praticada e, no cômputo geral, estimula-se a construção de um carácter mais interventivo e positivo do ponto de vista social. Na nossa sociedade, poucos são os que vivem do futebol, mas todos podem augurar um futuro melhor caso se tornem cidadãos capazes de fazer de um mero grupo de indivíduos um autêntico «superorganismo».

Referências

Andersen, S. L. (2003). Trajectories of brain development: Point of vulnerability or window of opportunity? Neuroscience and Biobehavioral Reviews, 27, 3-18.

Duarte, R., Araújo, D., Correia, V., & Davids, K. (2012). Sports teams as superorganisms: Implications of sociobiological models of behaviour for research and practice in team sports performance analysis. Sports Medicine, 42(8), 633-642.

Ferguson, A. (2014). Alex Ferguson – A minha autobiografia. Alfragide: Casa das Letras.

 

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