Nota prévia

Este texto surge na sequência do jogo Vitória SC x Rio Ave, disputado para a 29ª jornada da LIGA NOS 2017/2018, no dia 6 de abril de 2018. A equipa vimaranense venceu por 3-0, resultado que se verificou desde o minuto 41. A 30 segundos do final da partida, o treinador da equipa da casa – prof. José Peseiro – fez a terceira e última substituição ao trocar Paolo Hurtado pelo avançado brasileiro Welthon. Na linha lateral, enquanto aguardava pela saída do seu companheiro de equipa, o brasileiro chorou (ver vídeo aqui).

Todo o adulto tem uma criança dentro de si

Muitos discordarão da atitude do avançado brasileiro, sob o pretexto de que é um profissional de futebol e, por isso, é muito bem pago para cumprir as ordens que lhe são concedidas pela equipa técnica. Esses mesmos decerto compreenderão que o futebol é, acima de tudo, paixão, emoção e que deveria pressupor prazer. Usualmente quando a competição é cerrada e está em jogo um sem número de consequências futuras para clubes e jogadores, o prazer dilui-se no compromisso, na responsabilidade, enfim no profissionalismo. Welthon sentiu-se frustrado por não poder ajudar a sua equipa, mas sobretudo por não poder usufruir da possibilidade de fazer o que mais gosta desde pequeno: jogar futebol. E não é isto que acontece às crianças que adoram o jogo, mas que fim-de-semana após fim-de-semana choram porque não jogaram ou jogaram pouco? Todo o adulto tem uma criança dentro de si. Longe de querer examinar os motivos da equipa técnica para esta substituição tardia, Welthon não pode ser culpabilizado por expressar as emoções que qualquer ser humano sentiria nestas circunstâncias. Futebol é emoção, com todas as valências positivas e negativas que tal acarreta.

Na perspetiva da equipa técnica

Embora perceber de sistemas, modelos ou princípios de jogo seja fundamental, o treinador deve ter noções de como gerir recursos humanos e, por inerência, emoções. A qualidade que mais enfatizo é a empatia, ou seja, a capacidade de nos colocarmos na pele do outro. Todo e qualquer treinador profissional, e particularmente na formação, já tomou, toma e continuará a tomar decisões que melindra os seus jogadores ou aprendizes de futebol. Isso acontece comigo todas as semanas, em todas as convocatórias em que tenho de deixar, por força dos regulamentos, miúdos de fora. Como um defensor falha um desarme ou um atacante permite a defesa do guarda-redes numa grande penalidade, o treinador também comete os seus erros em treino e durante o jogo. No que se refere ao caso em análise, e desconhecendo por completo os acontecimentos do microciclo semanal do Vitória SC e as nuances do seu plano estratégico-tático para este jogo, parece que empatia e consideração para com Welthon foi o que não houve na substituição realizada. Um contexto que estava favorável para tantas emoções positivas (vitória por 3-0, jogo em casa com adeptos altamente vibrantes), acabou desnecessariamente com um elemento da equipa vencedora em lágrimas.

No mínimo, dá que pensar.

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