Luís Castro, que agora treina na 1ª Liga, foi durante muitos anos Diretor Técnico do Futebol Clube do Porto na área da Formação e por isso é uma das melhores pessoas para falar sobre o assunto.

Após ser Campeão com o Porto B na 2º Liga na época 2015/2016, fechou o ciclo que se iniciou em 2006/2007. E no final dessa época deu uma entrevista ao Porto Canal onde revela muito do que é o trabalho na Formação. Esta época também já falou sobre o assunto Formação numa entrevista ao site zerozero.pt.. Nestas duas entrevistas há tantos conteúdos que é praticamente impossível aborda-los todos num só artigo.

Uma das ideias de Luís Castro é que:

o tempo da Formação não é o tempo da Equipa A. A equipa A é provada semana a semana. Na formação os jogadores entram aos 9 anos e só aos 19 é que o colocamos à prova.

Esta afirmação defende que durante o período de formação o jogador não deve estar sujeito às pressões da vitória. Porque durante este período é necessário dar ferramentas aos jogadores para que vinguem quando forem seniores. Porque ter a pressão de vencer um jogo antes de o realizar retira toda a serenidade e tranquilidade que os jogadores precisam para desenvolver em jogo aquilo que trabalham em treino. Os treinadores devem criar um sistema de avaliação que não sejam os resultados. Criar objetivos e analisar qualitativamente o jogo e os jogadores. Por isso se queremos saber se um treinador de Formação fez um bom trabalho, temos de esperar até que o jogador chegue ao patamar sénior.

Outra ideia é a necessidade de formar jogadores inteligentes. Que consigam vingar em qualquer contexto. Porque um treinador quando treina uma criança ou adolescente tem de lhe dar ferramentas para o futuro. Ou seja, tem de adivinhar o que será o futebol no futuro. Ou então, criar contextos onde o jogador se consiga adaptar rapidamente e com alguma facilidade que lhe permita perceber aquilo que os treinadores e o jogo lhes pedem.

A criação de departamento interligados entre si, de apoio aos jogadores é também fundamental para Luís Castro. Desde departamento de Desenvolvimento de Capacidades Individuais, departamento de Treino de Guarda Redes, departamento de Psicologia, departamento de Nutrição, etc,.  Porque os jogadores precisam de ser otimizados e preparados para o futuro.

O desenvolvimento de um jogador deve-se a todos que trabalham com ele, deve-se à sua envolvência e à sua socialização dentro e fora do clube. Porque não é apenas o treinador que é decisivo neste processo. O jogador estuda, tem amizades fora do grupo/equipa, tem família, tem outros interesses fora do futebol, tem problemas pessoais, etc. Dizer que o desenvolvimento, ou não, de um jogador é culpa do treinador é do mais redutor que existe. Ele é importante, mas quando tudo o resto não acompanha os planos do treinador, tudo fica comprometido.

Da mesma forma que o jogador tem de começar a ter a noção que quando treina ou joga não faz pelo treinador ou para o treinador, nem para os pais ou adeptos. Treinam e jogam para eles. Para conseguirem alcançar o melhor possível quando o seu processo de formação terminar. E quando treinam e jogam mal, o mal é para eles. Tem de haver motivação intrínseca para que consiga alcançar patamares mais elevados.

Para a Formação ser melhor, é óbvio que a qualidade de todo o STAFF à volta da equipa e do jogador tem de ser a melhor. Tem de haver condições através dos Recursos Humanos. Boas pessoas que sejam Treinadores, capacidade Técnica na sua área de intervenção e interesse pelo futuro do jogador têm de ser os atributos para integrar uma equipa técnica de uma equipa jovem.

Estas são algumas das ideias gerais de Luís Castro para o Futebol de Formação. Mas há vários problemas em Portugal para que estas ideias possam ser aplicadas na maioria dos clubes.

O maior problema é que os clubes não têm capacidade financeira para sustentar um projeto de Formação.

Se olharmos para os “3 grandes” de Portugal, é fácil dizer que a Formação produz grandes rendimentos aos clubes através das vendas de jovens jogadores. O problema é que falar em Formação em Portugal é falar em todos os clubes. É falar nos clubes que alimentam a formação dos grandes, porque abastecem-se daquilo que os outros clubes fazem e não apenas no que produzem nos primeiros anos dos jogadores.

Sem ser nos clubes grandes, que jogadores se estão a formar? Quais os espaços de treino? Qual a interligação entre Escola e Treino? Que Desporto Escolar? Pagam ou não pagam para jogar? Estes são alguns dos problemas que Luís Castro identifica no futebol de formação em Portugal.

Quando os jogadores têm de pagar para jogar a seleção fica logo enviusada.

Porque há jogadores que se perdem porque em determinado momento podem não ter a capacidade para jogar porque não têm dinheiro para estar, treinar e jogar num contexto melhor e mais favorável ao seu desenvolvimento. A formação torna-se um negócio obrigatório porque os clubes não têm rendimentos. E o Estado não tem capacidade para apoiar os clubes na Formação.  É uma necessidade que vai criar problemas no futuro.

E se os clubes não têm capacidade financeira para pagar aos treinadores, também não vão conseguir criar uma estrutura de apoio para a Formação.

Ter Luís Castro atualmente na 1ª Liga é um privilégio porque é um Treinador atento e com sensibilidade para poder dar mais importância à base do Futebol. Porque melhor Formação produz melhores jogadores e acima de tudo melhores pessoas.

A formação em Portugal está nos eixos? Luís Castro responde assim: «Quando não há espaço para os jogadores treinarem, não está nos eixos. Quando um espaço é preenchido por duas ou três equipas, não pode estar nos eixos».
E deixa duas questões: «Como é que nós podemos entrar numa corrida se não temos carro ou se o carro não tem pneus? E a formação do treinador… é por eu ter o IV nível que estou formado como treinador?

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