Faz sentido restringir o cabeceamento no futebol infantil?

A ação de cabeceamento no futebol infantil.

A ação de cabeceamento no futebol infantil.

Introdução

No passado mês de fevereiro, as federações de futebol de Escócia, Inglaterra e Irlanda tomaram a medida preventiva de banir a ação de cabeceamento dos treinos no futebol infantil, isto é, até aos 11 anos de idade (Sub-12), não englobando os jogos competitivos. A partir dos 12 anos de idade, o cabeceamento deixa de ser banido, passando a ser controlado até determinado número por sessão. Esta decisão foi implementada após analisados os resultados de uma investigação, levada a cabo pela Universidade de Glasgow – “the FIELD study” –, que comprovou que um grupo de ex-jogadores profissionais apresentou uma probabilidade 3,5 vezes mais elevada de morrer de doença cerebral do que um indivíduo do público em geral (MacInnes, 2020). Porém, não foi uma iniciativa inédita pois, em 2016, a US Soccer (federação de futebol dos Estados Unidos da América) já havia banido o cabeceamento nos treinos e jogos de crianças Sub-10 e restringido o cabeceamento em jovens pré-adolescentes Sub-13. A realidade é que a exposição de jogadores profissionais a este tipo de situações é evidentemente superior aos praticantes de futebol nos escalões de formação. Será que as consequências são as mesmas? Mais, apesar das sequelas que os cabeceamentos podem provocar na saúde a longo prazo, será que a sua execução em faixas etárias mais jovens tem implicações no bem-estar a curto prazo? Vejamos o que nos diz a ciência sobre o tema.

O futebol e as lesões na cabeça: dados epidemiológicos

No futebol, as lesões na cabeça ocorrem tipicamente no terço médio do campo quando dois jogadores estão focados em disputar, através de cabeceamento, uma bola aérea. O contacto da cabeça com um cotovelo é mais frequente em indivíduos masculinos e, no caso do futebol feminino, é mais frequente o impacto “cabeça com cabeça”. Outras lesões menos frequentes são originadas através de contactos da cabeça com o solo, com os postes das balizas ou com partes dos membros inferiores de outro jogador. O contacto isolado com a bola está associado ao aparecimento de lesões numa pequeníssima fração da totalidade das ocorrências (Chiampas & Kirkendall, 2018).

Em termos epidemiológicos, cerca de 15% das lesões agudas no futebol infantojuvenil ocorrem na região da cabeça/pescoço, um número acima dos 7% observados em indivíduos adultos (Janda, Bir, & Cheney, 2002). Entre os mais novos, a falta de experiência, a técnica incorreta de cabeceamento, o subdesenvolvimento da musculatura do pescoço e a maior vulnerabilidade de um cérebro ainda imaturo são fatores que contribuem para este tipo de mazelas (Janda et al., 2002; Salinas, Webbe, & Devore, 2009; O’Kane, 2016). Há praticamente duas décadas, Janda e colaboradores (2002) publicaram um estudo com duas experiências: na primeira, 49% das crianças/jovens participantes (média de idade = 11.6 anos) reportaram dores de cabeça na sequência de ações de cabeceamento na bola; na segunda, 40% dos jovens (média de idade = 14.1 anos) manifestaram dores de cabeça após cabeceamentos em contexto de prática o que, de acordo com os autores, pode ser indicador de uma leve lesão na cabeça ou “somente” dor localizada no local de impacto com a bola. Mais tarde, Salinas et al. (2009) demonstraram que a maioria dos cabeceamentos foram de intensidade baixa a moderada e o contacto foi direto com a bola. Para além de a idade estar significativamente correlacionada com a frequência de contactos com a cabeça (figura 1), cerca de metade dos 49 participantes (22 raparigas e 27 rapazes; média de idade = 12.2 anos) reportou dor de cabeça e 25% mencionou sofrer de tonturas nos instantes após cabecear a bola.

Figura 1. Frequência de cabeceamentos por jogo, em função da idade (Salinas et al., 2009).

Por outro lado, há ainda a considerar as lesões crónicas, que derivam dos efeitos acumulados de pequenos traumatismos durante um período longo. Os cabeceamentos frequentes podem, de facto, originar uma lesão crónica com o respetivo decréscimo da função cognitiva, embora as evidências existentes sejam contraditórias (Harriss, Walton, & Dickey, 2018). Por exemplo, se, para Salinas e colaboradores (2009), a frequência de cabeceamentos não esteve relacionada com os resultados neuropsicológicos alcançados em jovens praticantes, um estudo com indivíduos adultos reportou que a execução de mais de 1800 cabeceamentos por ano levou à observação, via ressonância magnética, de anormalidades na microestrutura de matéria branca temporoccipital e, também, de menores resultados em testes de memória (O’Kane, 2016).

Se adicionarmos ao corpo de evidências os recentes resultados obtidos no “the FIELD study” (Universidade de Glasgow) e as medidas implementadas pelas entidades oficiais que tutelam o futebol na Escócia, em Inglaterra e na Irlanda, com o consentimento do Comité de Medicina da UEFA, far-nos-á, no mínimo, ponderar se devemos ou não continuar a permitir uma ação hipoteticamente nociva para a saúde de crianças que fazem do futebol a sua grande paixão (figura 2).

Figura 2. Cabeceamento: uma ação perigosa no futebol infantojuvenil?

A ação de cabeceamento é perigosa em crianças e jovens pré-adolescentes?

Quando eu era criança, com os meus 11/12 anos de idade, vi um companheiro de equipa desmaiar num jogo oficial depois de cabecear, sem oposição, uma bola pontapeada pelo guarda-redes adversário. Sim, os tempos eram outros: jogava-se em campos pelados, com bolas duríssimas e num campo enorme (Futebol 11) para crianças daquela idade. Lembro-me melhor dessa situação do que de qualquer golo que tenha marcado na altura e, talvez por isso, tenha agora investido algum tempo a pesquisar sobre a temática.

Como vimos previamente, em média, há apenas 1,64 cabeceamentos por jogo (Salinas et al., 2009) e dados não publicados nos Estados Unidos da América mostraram que, em metade dos jogos disputados do escalão etário Sub-8 ao Sub-15, não houve cabeceamentos executados (Chiampas & Kirkendall, 2018). Apesar de não haver evidências cabais de que cabecear no futebol infantojuvenil cause lesões permanentes no cérebro, as concussões são relativamente comuns e mais prováveis de ocorrer no ato de cabeceamento do que no desempenho de outras ações específicas do jogo (O’Kane, 2016). Além disso, as crianças são mais suscetíveis de sofrer uma concussão ao cabecear a bola em situações de treino ou de jogo, comparativamente a jovens adolescentes e adultos, demorando duas a quatro vezes mais tempo a recuperar destas lesões que, normalmente, os mantêm afastados da escola, de atividades sociais, do treino e da competição (Chiampas & Kirkendall, 2018). Tal como os bebés, quando estão a aprender a andar, as crianças ficam mais propensas a uma segunda lesão na cabeça se uma primeira ocorrer. O cenário piora visto a probabilidade de compreenderem e comunicarem os sintomas associados a uma comoção cerebral ser menor, o que complica a adoção de medidas de proteção e prevenção de episódios subsequentes.

Em suma, a frequência de cabeceamentos em competição é reduzida, em treino depende da importância atribuída pelos treinadores a esta ação e do tipo de tarefas propostas, mas é um facto que crianças e pré-adolescentes, por questões biológicas, biomecânicas e técnicas, possuem um risco acrescido de lesão associada aos movimentos angulares da cabeça para contactar com a bola. O cabeceamento é uma ação potencialmente perigosa e ignorar os dados disponíveis é deixar a saúde dos mais novos à mercê do acaso (figura 3).

Figura 3. O cabeceamento durante um jogo oficial de Futebol 7, disputado em Portugal.

Conclusão

A frequência da ação de cabeceamento está positivamente correlacionada com a idade no futebol infantojuvenil, em particular no género masculino, sendo que cerca de metade dos praticantes tende a reportar sintomas, como dor de cabeça ou tonturas, após executar esta ação. Ainda que a literatura existente não seja consensual a demonstrar efeitos nocivos (agudos e crónicos) do cabeceamento em funções neurocognitivas, não implica que não aumente o risco de lesões, mais ou menos graves, ao nível da cabeça. Assim, tendo em consideração as evidências apresentadas e as decisões tomadas noutros países, deixamos uma série de recomendações para todos os treinadores:

  • As crianças com menos de 10 anos devem evitar cabecear a bola, uma vez que a massa corporal, a musculatura do pescoço e a técnica de execução ainda não estão plenamente desenvolvidas;
  • Idealmente, é razoável ensinar o cabeceamento após os 10 anos de idade em situações de treino controladas, sendo que, em competição, a ação de cabeceamento deve ser adiada até que a aquisição da técnica e a maturidade física do jovem praticante permitam a execução correta e com confiança desta habilidade motora;
  • Os sintomas referidos pelas crianças após cabecearem a bola não devem ser descurados e é importante educar os treinadores e os pais acerca dos sinais associados à concussão, de modo a identificar a lesão atempadamente;
  • Deve ser enfatizada a importância de se jogar com segurança, pelo que crianças/jovens que reportem sintomas de concussão/lesão na cabeça não devem reentrar no jogo/treino em causa;
  • É preferível o uso de bolas mais pequenas no processo de aprendizagem do cabeceamento, ou fabricadas com materiais mais confortáveis (esponja, borracha, etc.) ou, então, reduzir a pressão da bola, de forma a que haja maior dissipação de energia no momento do impacto.

Segundo a US Soccer, “limitando a exposição ao risco de praticantes Sub-10, nós estamos a proteger as gerações futuras de jogadores e a estimular o desenvolvimento geral do indivíduo e das ações específicas da modalidade desportiva” (Chiampas & Kirkendall, 2018, p. 82). Aumentar a satisfação, o bem-estar e a longevidade na prática do futebol está longe de ser uma intenção que peque por ser irracional ou absurda. No caso concreto do cabeceamento, não parece ser descabido fazer uso da nossa sabedoria popular: “há um tempo certo para tudo” e “mais vale prevenir que remediar”.

Referências

Chiampas, G. T., & Kirkendall, D. T. (2018). Point-counterpoint: should heading be restricted in youth football? Yes, should be restricted in youth football. Science and Medicine in Football, 2(1), 80–82.

Harriss, A., Walton, D. M., & Dickey, J. P. Direct player observation is needed to accurately quantify heading frequency in youth soccer. Research in Sports Medicine, 26(2), 191–198.

Janda, D. H., Bir, C. A., & Cheney, A. L. (2002). An evaluation of the cumulative concussive effect of soccer heading in the youth population. Injury Control and Safety Promotion, 9(1), 25–31.

MacInnes, P. (2020, 24 de fevereiro). Children under age of 12 should not head footballs in training, say FAs. The Guardian. Retirado de https://www.theguardian.com/football/2020/feb/24/children-under-age-of-12-banned-from-heading-footballs-in-training

O’Kane, J. W. (2016). Is heading in youth soccer dangerous play? The Physician and Sportsmedicine, 44(2), 190–194.

Salinas, C. M., Webbe, F. M., & Devore, T. T. (2009). The epidemiology of soccer heading in competitive youth players. Journal of Clinical Sports Psychology, 3, 15–33.

1 Comentário

  1. Avatar
    Ana Silva
    26 Junho, 2020
    Responder

    Devido a estes estudos, nos USA, o futebol 7 não permite os cabeceamentos. Caso tal aconteça, o árbitro interrompe o jogo e concede um pontapé-livre indireto à equipa adversária.

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