Pode parecer difícil de acreditar mas, muitas vezes, o maior bully da equipa é o treinador.

Quando são os colegas de equipa, não é agradável, mas pelo menos é uma luta pelo poder entre iguais. No entanto, quando o treinador é o bully, não só é um abuso de poder, como o atleta e os pais podem estar a caminhar num campo minado.

Os treinadores bully  “atacam” todos os tipos de atletas jovens. Podem ser crianças que estão acima do peso, pequenas, ou que não têm confiança, por exemplo. Por outro lado, também podem ter como alvo os atletas talentosos, porque acreditam que a sua abordagem “endurecerá” os seus atletas.

Quer os atletas passem mais despercebidos ou sejam a “estrela” da equipa, o trabalho dos pais é o mesmo:  garantir que, se os filhos forem importunados, excluídos ou maltratados de alguma forma, pelos treinadores, mantêm a sua confiança intacta, aprendem a manter o foco, diante da adversidade, e não abandonam o desporto. O ponto principal, para os pais, é ficarem atentos aos treinadores e ter na sua posse todas informações necessárias para agir.

Sinais de que o treinador é um eventual bully:

O atleta está desanimado

Os pais devem confiar nos seus instintos. Quando a criança/jovem, que estava entusiasmado por se juntar à equipa, fica desanimado e mal-humorado, pode ser um sinal de que algo está errado. Uma coisa é estar temporariamente desencorajado, porque um jogo correu mal, ou porque falhou um golo, mas, quando o jovem atleta perde o entusiasmo pelo desporto, não sorri, quando entra no carro depois do treino, ou de um jogo, e não quer falar sobre o assunto, algo está errado e a situação deve ser examinada e resolvida.

O treinador grita “com” os jogadores, e não “para” os jogadores

Imagem: http://www.sportpsychologytoday.com/youth-sports-psychology/taking-action-against-bully-coaches/

O trabalho de um treinador é instruir a equipa e os seus jogadores. Às vezes, é necessário gritar para ser ouvido, especialmente em locais ao ar livre, mas há uma grande diferença entre um técnico que grita “para” os jogadores e um técnico que grita “com” os jogadores – e não é uma diferença de volume mas sim de tom e conteúdo. Há momentos em que os treinadores gritam: “Boa defesa!”, “Cobre o teu jogador!” ou “Vai mais para a direita”. Esses, são comentários positivos e instrutivos. Mas quando o treinador torna as coisas pessoais, ou grita em tom de acusação, como “Como é que conseguiste estragar tudo?”, “O que é que se passa contigo?” ou “Tu não consegues perceber! , aí ultrapassou os limites e já está a gritar “com” os jogadores.

Comentários depreciativos

Palavras como “estúpido”, “gordo” ou “burro” são, inequivocamente, inaceitáveis e, claramente, um comportamento agressivo. Se não é permitido a um professor de matemática, ou de inglês, este tipo de comportamento, porque deve ser a um treinador? Não deve!

O treinador só treina os mais “fortes”

Imagem: http://www.wholechildsports.com/2017/06/21/coach-player-bullying/

Especialmente nas equipas jovens, a ideia geral é que todos têm a oportunidade de jogar, aprender, experimentar e desenvolver-se. Mas quando os treinadores colocam, permanentemente no banco, jogadores “menos qualificados” ou “mais fracos” ou de quem simplesmente não gosta, não está a dar, a esse jogadores, a oportunidade de crescer. Torna-se uma profecia auto-realizável que os bons jogadores, que conseguirem tempo em campo, continuarão a aperfeiçoar as suas habilidades e que os jogadores, que não estão em campo, não terão a oportunidade de melhorar.

“Vamos comer um gelado. Eu pago!”

Há uma grande diferença entre agir com generosidade e agir por culpa. Assim como em qualquer relação abusiva, atos de violência física, ou emocional, são frequentemente seguidos por atos de constrição. O treinador abusivo oferece um gelado à equipa depois de um treino, ou jogo? Isso segue um padrão de generosidade típica ou esperada, ou cria a impressão de que o treinador é o Sr. Hyde, em campo, e o Dr. Jekyll, fora dele? O treinador oferece esses presentes como suborno, para que os jogadores não se queixem aos pais, coordenadores, ou dirigentes? “Como é que ele pode ser assim tão mau? Ele até te ofereceu um gelado!” Mais uma vez, os pais devem confiar nos seus instintos porque esses gestos são, muitas vezes, sinal de uma consciência culpada, em vez de generosidade sincera e são um sinal de que algo está errado.

O treinador é um bully:  o que fazer?

https://kemptonexpress.co.za/130252/time-to-tackle-bullying-by-the-horns-5-misconceptions/

Na presença de algum dos comportamentos descritos anteriormente, o primeiro passo é falar com treinador e/ou coordenador técnico. Embora a comunicação aberta seja ideal, é necessário moderar as expectativas. Porquê? Porque o treinador ganhou a sua posição através de um padrão consistente de comportamento e, com toda a probabilidade, esse comportamento sempre incluiu ser um bully. O sucesso pode gerar arrogância, o que significa que o treinador pode sentir justificação para as suas ações e não querer fazer mudanças e o mesmo pode acontecer com o coordenador técnico.

Vendo pela perspectiva do treinador: essa não é uma conversa ponderada sobre se o treinador é ou não um bully. É uma acusação que exige uma resposta , um desafio à sua autoridade estabelecida e, quando os egos são atacados, a defensividade surge. Na pior das hipóteses, o plano de comunicação aberta dos pais pode tornar uma situação má, numa muito mais difícil. Não se contentando em ser defensivo, o técnico pode decidir entrar ao ataque e retaliar contra o jogador.

Se houver inércia ou retaliação, o atleta e os seus pais deverão estar preparados para deixar a equipa. Não é justo, mas a questão é que a situação atual é destrutiva e intolerável e é necessário proteger a criança/jovem e os seus valores. Ao forçar o jovem atleta a ficar numa situação em que o treinador o está a mal tratar ou humilhar, os pais enviam a mensagem de que não faz mal o(a) filho(a) ser tratado(a) dessa maneira.

Vendo de outra perspetiva: Um professor pode tratar uma criança, ou jovem, com falta de respeito? Ou os pais do melhor amigo do seu filho? Com toda a probabilidade, não! Então, também não deve ser permitido ao treinador que o faça.

Desistir

Algumas pessoas defendem que nunca se deve desistir, no entanto, há lições que podem ser aprendidas ao sair de uma equipa, pelas razões certas.

Imagem: https://devzone.positivecoach.org/resource/externallink/how-coaches-can-stop-bullying-youth-sports-parents

Um jovem atleta aprende que …

– O respeito próprio vem em primeiro lugar

– Os pais são defensores preocupados

– Estar certo não é garantia de sucesso

Ensinar aos nossos filhos que a vida não é justa destrói o mito de que todas as histórias terminam “felizes para sempre”, mas essa é uma grande aprendizagem e um grande passo em direção à maturidade. Essa é, também, uma lição inevitável e que a maioria dos pais quer adiar o maior tempo possível.

O respeito próprio é uma das lições mais importantes a ensinar aos filhos, pois vai moldar tudo, desde a forma como eles comem até à carreira que vão escolher. Aprender o que é o respeito próprio, com um treinador que é um bully, não é a escolha certa, de como reforçar essa lição de vida, mas às vezes há que trabalhar com o que nos é dado e decidir se respeitamos os nossos filhos o suficiente, para os mantermos seguros.

Fontes:

* Cohen, Emily; The Coach is a Bully: Now What?; Huffington Post; Dez 2017

* Cohen, Emily; 5 Telltale Signs the Coach Is a Bully; Huffington Post; Dez 2017

* Edger, Mike; Taking Action Against Bully Coaches; Sports Psychology Today; Out 2012

1 Comentário

  1. Vera Lúcia Peres
    22 Maio, 2018
    Responder

    Excelente artigo mas peca por não apresentar medidas pós-bullying, ou seja, o que fazer após a situação ser exposta à Coordenação Técnica e à direção da presidência do clube e ninguém nada fazer, porque o mais importante é a imagem do clube e ganhar.
    Infelizmente, o meu filho passou por isto mas eu tive o discernimento necessário para atuar e tomar as medidas corretas, entre elas, a saída da equipa e do clube.
    O bullying é um ato criminoso, principalmente quando ocorre com crianças de tão tenra idade porque são nestas idades que adquirem as bases que irão construir e/ou definir a sua personalidade, e as consequências nefastas deste tipo de conduta nem.sempre são visíveis a curto prazo, muito pelo contrário.
    Contudo, a legislação também não é a mais adequada porque as crianças deviam poder sair de uma equipa, e dum clube, sem que fossem impedidos desde que houvesse justa causa e a prática de bullying é justa causa mais do que suficiente para a desvinculação de uma criança ao um clube. E a prova é que, mesmo com queixa na Associação de Futebol regional de Ponta Delgada, e decorridos 4 meses, o meu filho continua sem poder fazer o que gosta: jogar futebol porque o clube se recusa a emitir a carta de transferência apesar de o poder fazer e a saída do mesmo ser culpa do treinador do clube.
    Quando ocorre uma situação, as pessoas têm dificuldade em acreditar mas quando ocorrem mais situações e as crianças começam a sair e as queixas aumentam… “maior cego é o que não quer ver” e o clube passa a ser tão, ou mais, culpado do que o treinador que comete bullying por ser conivente e passivo com a situação depois de ser do seu conhecimento.
    Não posso deixar de manifestar a minha indignação quanto á atuação passiva da Associação Regional de Futebol de Ponta Delgada que, não obstante a preocupação demonstrada, não conseguiu resolver esta situação e, no entanto, existe um Plano Nacional de Ética Desportiva mas que, na prática, não se aplica…
    Outro problema inerente prende-se com a passividade dos pais das crianças que acham normal o bullying e só vêm na frente um objetivo: o de ganhar. Ganhar mas a que custo!? Á custa de crianças!? Da personalidade das mesmas? Pretende-se crianças justas, bem formadas e íntegras, não crianças violentas, sem amor próprio e falta de confiança e auto-estima.

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