«O futebol jogado na rua constitui o ambiente mais natural de aprendizagem.»

(Rinus Michels; treinador do Século XX para a FIFA)

Introdução

Parece ser consensual que o paradigma do futebol de formação sofreu mudanças significativas nas últimas décadas. Na década de 90 do século passado ainda era vulgar encontrarmos muitos miúdos a jogar futebol na rua. Três contra três (3v3), 4v4, 6v5, não importava, e dependia de inúmeras variáveis como o número de jogadores que apareciam (independentemente do escalão etário), do espaço disponível e do regime de competição acordado entre nós (até aos 10 golos, muda de campo aos 5; bota-fora ao golo marcado/sofrido). Atualmente, é uma raridade encontrar crianças/jovens a jogar à bola na rua. O paradigma mudou e é outro: a era dos clubes e das escolas de futebol. O presente texto tem como propósito tecer algumas considerações sobre esta mudança de paradigma e o que isso implica na aprendizagem do jogo, no interesse pela modalidade e na longevidade da prática desportiva.

O Antes…

Antigamente, e não há muito tempo atrás, raros eram aqueles que começavam a jogar futebol nos clubes ou em escolas de futebol. A figura 1 exibe a organização da prática de futebol, em idades infantojuvenis, até finais do século XX.

Figura 1. O futebol nas idades infantojuvenis até finais do século XX.

Inicialmente, e desde muito cedo (5 anos), o futebol era predominantemente praticado na rua. A transição para o futebol federado ocorria entre os 11 e os 17 anos de idade, sendo essa transição variável em função do contexto sociocultural em que a criança/jovem estava inserida. O jogo na rua constituía uma base sólida de suporte à prática federada. Curiosamente, inúmeros jogadores de elite confirmaram que essa prática informal prévia foi fundamental para a aquisição e desenvolvimento de competências específicas da modalidade em tenra idade (Fonseca & Garganta, 2006; Abernethy, 2008; Araújo et al., 2010).

Figura 2. Um dos palcos do «nosso» futebol de rua.

A figura 2 mostra uma das ruas em que jogávamos à bola, um palco de inúmeras «peladas» entre amigos, como podem imaginar. E o contexto que nos oferecia! Uma baliza bem delimitada de um lado (portão); do outro lado utilizávamos pedras. As paredes das casas funcionavam como tabelas e, dependendo do número de crianças/jovens presentes, adaptávamos as regras e o tipo de jogo. O jogar na rua permite que o aprendiz explore as soluções mais adequadas às circunstâncias, sem imposições exteriores e sob uma base de motivação intrínseca assinalável. Isso favorece a espontaneidade das ações, estimula a criatividade para descobrir soluções para os problemas contextuais do jogo e, as crianças, porque estão altamente motivadas para jogar, perdem a noção do tempo, aumentando substancialmente o volume de prática (i.e., o tempo útil de prática). Inadvertidamente, trata-se de uma perspetiva ecológica de ensino/aprendizagem totalmente centrada no indivíduo, surgindo a autonomia como uma característica basilar (figura 3).

Figura 3. Autonomia: característica basilar do futebol de rua.

Refiro-me à autonomia da criança/jovem para:

  • Estruturar… a tarefa, o jogo, adaptando/modificando as regras em função dos seus interesses e das suas possibilidades;
  • Decidir… no jogo, sem imposições exteriores (treinador, estratégia, etc.) e com liberdade para errar;
  • Executar… as ações técnicas pretendidas (de calcanhar, as bicicletas, as trivelas, as letras, etc.), o que potencia o desenvolvimento do repertório motor, garantindo a possibilidade de inovar e de «fugir» ao convencional;
  • Refletir… sobre o jogo. O que correu bem? O que correu mal? O que devo fazer para marcar golo? Como lidar com a velocidade e/ou os dribles do adversário?

Entidades que governam o futebol em Portugal ou na Alemanha, por exemplo, perceberam a importância deste fenómeno e implementaram os programas «Hat-trick» (FPF – Federação Portuguesa de Futebol em parceria com a UEFA) ou «Em busca do talento» (DFB – Federação Alemã de Futebol), visando construir numa série de campos de futebol acessíveis a toda a comunidade. Alguns anos após a introdução destas medidas, as seleções nacionais destes países obtiveram resultados de destaque em competições internacionais de futebol. Não é que os títulos conquistados tenham sido uma consequência direta destes programas, mas pode ter havido algum tipo de contributo indireto. Fica para a nossa reflexão.

O Agora…

Como no poema de Luís Vaz de Camões, «mudam-se os tempos, mudam-se as vontades». Hoje em dia, em pleno século XXI, o paradigma no futebol de formação é totalmente diferente. O futebol evoluiu e adaptou-se às novas exigências da sociedade. Os pais passam mais tempo no trabalho e os clubes/escolas de futebol, percebendo novas (e boas) oportunidades de negócio, acompanharam a evolução do mercado laboral. Por sua vez, a noção de segurança diminuiu drasticamente e o nível de proteção das crianças nunca foi tão elevado. Com isto, o futebol de rua tornou-se uma prática em vias de extinção, ao contrário do futebol federado (figura 4).

Figura 4. O futebol nas idades infantojuvenis no século XXI.

A maior parte dos clubes/escolas de futebol já adotaram a organização estrutural demonstrada na figura 4. A questão que se impõe é a seguinte: não estaremos nós a promover a «especialização precoce»? A especialização precoce é definida como o início prematuro: (i) no desporto, sobretudo, num só desporto; (ii) na prática/treino formal de alta intensidade; (iii) em contextos de elevada competitividade. Quem quiser colocar em causa esta constatação, que assista a um torneio de Petizes (Sub-7) ou Traquinas (Sub-9) e observe, criteriosamente, os comportamentos de treinadores, de pais e do público em geral. É o envolvimento típico de um jogo de seniores. Chegámos ao ridículo de ouvir o árbitro ser vaiado antes de o jogo começar, para não mencionarmos episódios de discussão entre treinadores ou de pancadaria entre pais. Nos dias de hoje, jovens com 16 ou 17 anos chegam aos Juvenis (Sub-17) literalmente fartos de futebol, acabando por procurar outras atividades mais lúdicas e menos exigentes. Mais uma vez, fica para a nossa reflexão.

Conclusão

Na balança do futebol de formação, os pratos «jogar para aprender» e «aprender a jogar» devem ser bem ponderados. Será ingénua a medida tomada por alguns clubes/academias de elite de facultar o «treino livre» aos seus jovens praticantes? A meu ver, descobrir/explorar por si (futebol de rua) e a prática deliberada/formal (futebol federado) são complementares e não autossuficientes para alcançar bons níveis de rendimento desportivo no futuro. Não reclamo que a sociedade reinvente o futebol de rua, apenas que os clubes e as escolas de futebol proporcionem às crianças/jovens tarefas que incutam autonomia, responsabilidade e prazer pela prática do jogo de futebol. Designadamente em idades mais jovens (até aos 10/11 anos), é imperativo que o ensino/aprendizagem da modalidade deixe de estar focado na equipa, nos princípios e nos subprincípios de um suposto modelo de jogo, e passe a estar centrado no jovem aprendiz, concedendo primazia ao crescimento e ao desenvolvimento da individualidade.

«O melhor conselho que se pode dar às crianças é que, nos seus tempos livres, desfrutem jogando e não se deixem fechar na caixa que os adultos fabricaram para elas.»

Michael Jordan (in Fonseca & Garganta, 2006, p. 13)

Referências

Abernethy, B. (2008). Introduction: Developing expertise in sport – How research can inform practice. In D. Farrow, J. Baker and C. MacMahon (Eds.), Developing Sport Expertise (pp. 1-14). London: Routledge.

Araújo, D., Fonseca, C., Davids, K., Garganta, J., Volossovitch, A., Brandão, R., & Krebs, R. (2010). The role of ecological constraints on expertise development. Talent Development & Excellence, 2(2), 165-179.

Fonseca, H. & Garganta, J. (2006). Futebol de rua: Um beco com saída. Do jogo espontâneo à prática deliberada. Lisboa: Visão e contextos.

2 Comentários

  1. Avatar
    Bebeto Stival
    14 Junho, 2017
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    Que artigo fantástico. O jogar para aprender, como diz em uma parte do conteúdo apresentado. Saber entender a contextualização do jogo.

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