O papel do treinador no futebol de formação segundo a Abordagem Baseada nos Constrangimentos


Introdução

A Abordagem Baseada nos Constrangimentos (ABC) é um modelo teórico proposto inicialmente por Karl Newell, em 1986, segundo o qual os comportamentos individuais e coletivos dos jogadores resultam da interação de três categorias distintas de constrangimentos: praticante, ambiente e tarefa (Araújo, 2006; Renshaw et al., 2015). Os constrangimentos do praticante referem-se a características específicas do indivíduo, tais como a idade, a estatura, o peso, as cognições, as motivações, as emoções, etc. Os constrangimentos ambientais são, sobretudo, de cariz físico (e.g., condições climáticas, estado e tipo de terreno, etc.) e social (e.g., influência do treinador, do público, etc.). Os constrangimentos da tarefa são os mais manipuláveis pela intervenção do treinador e incluem as regras, os objetivos, as dimensões do espaço de jogo, o número de jogadores por equipa, etc., e condicionam as dinâmicas individuais e coletivas durante a prática (figura 1).

Intervencao no treinador ABC

Figura 1. O processo de treino segundo a ABC (Araújo, 2006).

Nesta abordagem ecológica, a ênfase é colocada na interação entre o indivíduo e o envolvimento, sendo cientificamente reconhecido que a manipulação de constrangimentos pode promover o desenvolvimento de competências técnicas, táticas e estratégicas no futebol, em especial ao longo do processo de formação do jogador. Por exemplo, o treinador pode fomentar a exploração de soluções técnicas (receções orientadas e passes precisos), táticas (saídas de zonas de pressão defensiva adversária) ou estratégicas (transições rápidas) mediante a imposição de um constrangimento (regra) que limite os praticantes a jogar, no máximo, a dois toques por intervenção sobre a bola (Almeida et al., 2012).

 

A importância do jogo no processo de treino

The game is the teacher. [O jogo é o professor]

(Renshaw et al., 2015)

O jogo é um aspeto nuclear na ABC, uma vez que o contexto de aprendizagem deve pressupor representatividade, ou seja, oportunidades de ação similares ao contexto de desempenho (competição). O processo de treino é visto como uma exploração contínua de soluções para problemas reais num cenário percetivo-motor muito particular (o jogo) e que integra as três categorias de constrangimentos previamente mencionadas. Ao manipular o jogo em jogos reduzidos e/ou condicionados, o treinador pode induzir que surjam, através de descoberta guiada, soluções apropriadas para os problemas contextuais. Mais, a produção de relações funcionais entre fontes de informação (perceção) e movimento (ação) deixa de depender apenas das preferências do jovem jogador, passando a estar suscetível aos comportamentos dos jogadores oponentes.

O treinador como facilitador

A ABC não requer que os treinadores sejam demasiado interventivos, antes devem facilitar a descoberta dos jogadores. Um dos erros mais comuns dos treinadores é cederem, gratuitamente, as respostas aos problemas com que os jovens aprendizes se deparam, em vez de os encorajarem a explorar e a assumir responsabilidade pela sua aprendizagem, ou seja, a encontrar soluções para os problemas que emergem no jogo. De acordo com esta perspetiva, mais importante do que interagir verbalmente com os jogadores, é a arte do treinador em manipular o jogo. Os jogos devem conduzir os praticantes aos comportamentos pretendidos e à concretização dos objetivos predefinidos. Portanto, no intuito de facilitar o processo de aprendizagem, o treinador deve:

  • Apropriar os jogos reduzidos/condicionados à idade, à experiência e ao nível de prática dos praticantes;
  • Manipular constrangimentos da tarefa para promover jogos progressivamente mais desafiantes e cativantes;
  • Salvaguardar a variabilidade prática e funcional dos jogos propostos.

O jogador como agente ativo na aprendizagem

O jogador deve ser um elemento ativo em busca de soluções. “Procurar, descobrir e explorar” são ações chave de um aprendiz no âmbito da ABC (Renshaw et al., 2015). Os jogadores necessitam de atuar autónoma e ativamente para aperfeiçoar não apenas aspetos práticos, mas também para melhorar o conhecimento/entendimento que têm das diversas fases do jogo. Perante a oportunidade de explorar o contexto, os jogadores devem manifestar a intenção de concretizar os objetivos definidos para a tarefa e, assim, irão inadvertidamente acoplar as suas ações às fontes de informação relevantes no envolvimento, garantido que a afinação percetual e a calibração percetivo-motora ocorram de forma efetiva.

Conclusão

O papel do treinador segundo a ABC é o de facilitador da aprendizagem. Tendo o jogo como contexto de referência, a mestria do treinador avalia-se pelo modo como manipula os constrangimentos da tarefa, no sentido de “canalizar” a exploração efetiva do jovem jogador. A interação “jogador-treinador” é pontual; a interação “jogador-envolvimento” é constante e absolutamente decisiva. Neste particular, independentemente da idade ou nível de prática, o jogador deve assumir-se como um agente ativo nas sessões de treino e, em última instância, na construção da sua própria aprendizagem.

 

Referências

Almeida, C. H., Ferreira, A. P., & Volossovitch, A. (2012). Manipulating task constraints in small-sided soccer games: Performance analysis and practical implications. The Open Sports Sciences Journal, 5, 174-180.

Araújo, D. (2006). Tomada de decisão no desporto. Lisboa: FMH Edições.

Renshaw, I., Araújo, D., Button, C., Chow, J. Y., Davids, K., & Moy, B. (2015). Why the Constraints-Led Approach is not Teaching Games for Understanding: A clarification. Physical Education and Sport Pedagogy. doi: 10.1080/17408989.2015.095870

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