Psicologia Do Desporto: Uma Exclusividade?


No Futebol, ao contrário do que acontece noutras modalidades, a Psicologia do Desporto (PD) tarda em ser reconhecida e integrar a sua estrutura. Esta dificuldade é, por vezes, traduzida pelo desconhecimento, descredibilização e até rejeição por parte de alguns agentes desportivos. O «Mundo» do Futebol é muito peculiar e é dotado de um conservadorismo assente em mitos e preconceitos enraizados, que embora se têm vindo a desconstruir ao longo do tempo, fomentado em parte pela aposta na formação dos agentes desportivos, ainda tem um longo caminho a percorrer. Apesar de não existirem dados estatísticos concretos e oficiais, tem-se observado um aumento do número de psicólogos a integrarem equipas técnicas de clubes profissionais, semi-profissionais e até amadores.

Apesar deste aumento em clubes não-profissionais, pairam ainda algumas ideias que, principalmente por falta de conhecimento, contribuem para um leque de barreiras que prejudicam a integração dos profissionais desta área científica nas várias instituições futebolísticas. Falo de ideias como “a Psicologia do Desporto é «apenas» para os atletas profissionais e desporto de alta competição”, em que mesmo para os atletas profissionais “só alguns é que precisam, os que têm problemas”. Por esta ordem de ideias a PD terá um público alvo muito pequeno e restrito, ficando excluídos todos aqueles que praticam desporto não de alta competição, aqueles que são mentalmente sãos e a grande maioria das crianças e jovens. Proponho então fazer um pequeno exercício de reflexão analisando alguns pontos que penso serem fundamentais.

Antes demais, a Psicologia do Desporto e da Actividade Física defini-se rigorosamente como o estudo científico de pessoas em situação de contexto desportivo ou de exercício físico, assim como a aplicação prática dos conhecimentos da disciplina. O psicólogo tem como objectivo contribuir para a melhoria e bem-estar do atleta que, nomeadamente, se vai reflectir numa melhoria do seu rendimento. Isto é independente de ser desporto de baixa ou alta competição e de os fenómenos poderem ter a sua maior expressão neste nível.

Ao mesmo tempo, não me parece possível e muito menos justo(!) dissociar o atleta da pessoa que o sujeito é fora do contexto desportivo, uma vez que considero o atleta uma extensão daquilo que o indivíduo é enquanto pessoa. Como diria um conhecido meu “A forma como tu jogas, diz muito daquilo que és como pessoa”, o que não será uma verdade La Paliciana, mas também estará longe de ser uma total falácia.

O desporto e neste caso em concreto o Futebol, é um «simulador» de situações da vida quotidiana e toda a aprendizagem adquiria poderá e deverá ser transportada para lá das fronteiras desportivas. Isto acontece independente do seu grau de profissionalização. Podemos ver, a título de exemplo, o caso da aquisição e treino de competências de vida que o Desporto pode proporcionar aos seus praticantes. Tornando-se ainda mais relevante quando falamos dos escalões de formação (Futebol de Formação).

Por último e no seguimento do ponto anterior, cada vez mais os Pais quer por decisão própria quer por aconselhamento técnico, promovem a integração do Desporto na vida dos filhos, com a expectativa de este proporcionar não só um desenvolvimento físico saudável, mas também e tão ou mais importante, o desenvolvimento sócio-cognitivo das crianças. Dando ênfase à frase comum de que “O desporto além de formar atletas, forma homens!”. O Psicólogo e o Treinador trabalhando em conjunto e cruzando os seus conhecimentos são os pilares do trabalho que se pode fazer com os atletas, que os poderão ajudar a desenvolverem-se não só enquanto desportistas, mas também como pessoas.

Paremos agora alguns instantes para assimilar estes pontos e redefinir ideias. Atendamos ainda ao facto de que o Desporto tem o poder de proporcionar aos seus praticantes um prazer, durante o processo de aprendizagem, que poucas actividades conseguem igualar. Posto isto, torna-se mais claro o papel que a Psicologia poderá desempenhar no Desporto em geral, mas principalmente não-profissional e de formação. Devolvo então a questão, será correcto considerar a Psicologia do Desporto uma exclusividade do Desporto Profissional?

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