O futebol é um desporto que causa entusiasmo e, na realidade, em cada pai/adepto pode aparecer um verdadeiro treinador de bancada. Para além do comportamento por vezes irracional no antes/pós treino ou jogo, todos eles apresentam soluções, novas ideias, formas e filosofias diferentes para dirigir a sua equipa momentânea, aquela na qual aonde o filho joga, achando-as suficientes para a dirigir melhor do que o actual técnico. As reações da bancada são diversas, sendo, por vezes, tão bizarras como irracionais: “Vais meter esse gajo??? Não vale nada!!!!“, “ Olha vai tirar um avançado e meter um defesa”, “epá aquele miúdo é um minorca, quer mesmo perder o jogo!!!, este treinador não percebe mesmo nada disto!!!” Na, verdade estes pais-adeptos, quase sempre pais-adeptos apenas do filho, transcendem-se, e frases destas são uma rotina constante por esses campos de futebol, nem percebendo que com estes comportamentos envergonham os filhos e desmotivam-nos frequentemente. Exceção feita a um ou outro pai, que podem ser ou ter sido treinadores, a grande maioria destes adeptos-pais nunca poderão treinar qualquer clube e, no íntimo, reconhecem que não possuem essas qualidades, nem formação e muito menos experiência para serem técnicos, por isso preferem emitir opiniões a partir da bancada. Muitos, quase todos, alegam que jogaram, que vêem muito futebol há muitos anos e que, por isso, têm conhecimentos sólidos. Costumo dizer a estes pais que não é por vermos muitos filmes policiais que somos policias ou detetives ou advogados etc, etc…., mas a tribo adepto-pai-treinador de bancada é “mais forte” e as dinâmicas de grupo e de pares, que se criam entre os pais, quase que excluem aqueles que têm um comportamento normal, deixando os verdadeiros treinadores e atletas tomarem as decisões práticas, em função do que treinaram.

O adepto-pai-treinador, normalmente, tem um comportamento que roda sempre em função do desempenho do filho e nunca da equipa. Se a equipa ganha e o filho jogou, “ grande jogo, grande exibição “. Se a equipa ganha e o filho não jogou “ que equipa fraquinha esta que jogou contra a nossa”. Se a equipa perde e o filho jogou “ que azar, os outros eram maiores, mais velhos, etc…” . Se a equipa perde e o filho não jogou, “ como é que o treinador quer ganhar se deixa os melhores no banco?”. Toda a dinâmica gira em função do filho e nunca em função da equipa, do grupo e do clube.

É impossível a um pai-treinador de bancada ser solidário e unir-se à equipa na qual onde o filho joga, especialmente se o filho joga pouco, especialmente quando a equipa perde, mesmo que a equipa se tenha esforçado bastante, pois, segundo ele, faria muito melhor se o seu filho estivesse em campo. Estes sujeitos consideram-se mais inteligentes e superiores à maioria dos que gravitam à volta do futebol e, embora saibamos que são eternamente céticos, compete aos treinadores tentarem não lhes dar muita importância. Sabemos que nunca um pai-adepto-treinador de bancada perdeu qualquer jogo, mas também sabemos que nunca ganhou nenhum! Chega a ser surreal ter no banco um treinador, muitas vezes ex-praticante, com anos de formação feita, com anos de banco e com experiências acumuladas de anos e anos, alguns com formação superior, homens e mulheres que se dedicaram e se prepararam para o ensino/treino do futebol, a terem os seus conhecimentos colocados em causa por adeptos-pais-treinadores, de bancada que, mesmo que tenham sido praticantes, nunca se prepararam para a tarefa de treinador. No entanto aos pais-adeptos-treinadores, mesmo sabendo que não têm nenhuma formação específica sobre a arte de dirigir um treino, um jogo, isso não os impede de analisar os desempenhos técnicos/táticos, bem como físicos dos jogadores, ou mesmo avaliar a capacidade de gestão e liderança dos treinadores. Se alguma dúvida existe de que Portugal é um Pais de pais que se comportam como autênticos treinadores de bancada, basta ler a imensa literatura que neste momento classifica os pais como o maior entrave ao desenvolvimento, crescimento e maturação dos jovens no futebol, criando-lhes expectativas, por norma sempre desajustadas, e assim criando uma pressão adicional à melhoria do seu desempenho. Também naqueles clubes maiores, ou de maior referência na cidade, é criado um status social entre os pares de adultos, “ o meu filho joga no…..”, gerindo este facto como uma subida na sua reputação e crédito social entre os seus amigos. O peso e o desgaste ficam sempre no filho que, de repente, se vê refém da vaidade do progenitor, mas também da frustração e irracionalidade do pai-adepto-treinador de bancada.

Então o que é que tem um treinador com formação adequada e o que o faz diferir do pai-adepto-treinador de bancada? Na minha opinião, o treinador terá que possuir certas características fulcrais: competências, autoridade e não autoritarismo, liderança, seriedade, pedagogia e fair-play. O treinador deve executar um bom trabalho, o que, no entanto, não significa que obtenha um bom resultado desportivo, ou que ganhe um campeonato, pois o futebol é feito de momentos, nos quais onde o factor adversário, por vezes o fator sorte desempenham sempre um papel chave. Não deve ser obrigatório exigir a vitória, mas o treinador, através de um trabalho eficiente e competente, deve conseguir uma boa evolução do atleta em todos os parâmetros, e se possível, juntar-lhe um bom resultado desportivo. Um treinador deve transmitir aos seus atletas os pontos essenciais a trabalhar e os meios para alcançarem o êxito no desempenho das suas tarefas, sem nunca descurar que o trabalho semanal de aparecer plasmado de forma o mais transparente possível no jogo. O treinador deve certificar-se que a mensagem foi transmitida de forma clara para todos os atletas do plantel. É importante que o treinador tenha a consciência de que tem sempre a última palavra, isto é, a sua decisão, no fim, é a que prevalece. Nesse sentido, o treinador deve manter uma determinada postura de coerência relativamente ao seu grupo de trabalho, sendo importante estabelecer uma relação de confiança com todos os atletas do plantel. A par deste trabalho e do conhecimento, também a mestria e criatividade devem estar presentes no treino e na explicação dos exercícios de treino. Acresce a tudo isto a importância do treinador saber estar dentro e fora do campo, utilizando sempre uma postura pedagógica e assumindo sempre tudo aquilo em que acredita, encarando as dificuldades com inteligência e sabedoria.

Olhando para estas competências gerais do treinador e observando o comportamento dos adepto-pai-treinador de bancada, percebemos que este apenas opina durante os minutos em que decorre o jogo, mostrando e dando pareceres técnico-tácticos ao treinador aos jogadores e tudo isto sem nunca ter dado um único treino na sua vida!!! Aliás, a máxima que se utiliza com os atletas “vir ao treino é diferente de ir treinar”, aplica-se aos pais, pois eles, na realidade, apenas vêm mesmo ao treino! A imagem de realidade do pai está a uma distância enorme da realidade.

Neste momento, os clubes deviam investir em 2/3 sessões obrigatórias com todos os pais, com o intuito de formar os pais para serem pais de atletas de competição. A irracionalidade com que todos os fins de semana somos brindados com estes pais, que “investem” tudo no filho desportista, esquecendo-se que o filho tem um tempo de crescimento e maturação incompatível, sempre incompatível, com a velocidade mental que o progenitor tem como expectativa. Recentemente, ouvi uma história curiosa de um técnico que, vendo que a equipa adversária se apresentou com menos um jogador, decidiu fazer o mesmo, jogando também com menos um. No fim, perdeu o jogo, e logo foi questionado pelos pais do porquê daquela decisão. O que aquele treinador fez pela formação dos miúdos em 60 minutos com aquele gesto é impagável, mas os adeptos-pais-treinadores, cegam apenas com o resultado. Actualmente precisamos de melhores pais nos campos de futebol, para termos melhores atletas. A verdade é que os pais não nascem ensinados, não aprendem sem errar, nem sequer têm uma bola de cristal que os tranquilize perante o futuro. Se pensarmos que sonham exponencialmente quando sonham pelos e para os filhos, compreendemos a complexidade de sentimentos que transportam, quando acompanham a formação e a carreira desportiva dos seus filhos.

Precisamos de todos indiscutivelmente, treinadores, diretores, atletas e pais, cada um na sua função! A última coisa de que precisamos, neste momento é do adepto-pai-treinador que olha apenas para o filho como uma ilha e não como o filho inserido num grupo. O futebol agradecia e acima de tudo, os miúdos, sim estivemos a falar de miúdos, e eles seguramente agradecem que nós, adultos, melhoremos!!!!

2 Comentários

  1. Avatar
    Luis
    24 Maio, 2019
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    Este artigo é um lugar comum… Repetitivo, arrogante, etc… Um bom treinador, dedicado e honesto.. Não precisa de se preocupar….

  2. Avatar
    Paulo
    25 Maio, 2019
    Responder

    Muito bem. Concordo com tudo. Só falta acrescentar que na maior parte dos clubes, mas camadas jovens, há um treinador que tem a formação para apresentar na federação e depois existem 7 ou 8 sem essa formação para cada um dos grupos. Inclusive treinadores que treinam os seus próprios filhos. Em segundo lugar, a todas estas divergências entre adepto e treinador chama-se futebol. Além de fazer parte da natureza humana – nem Jesus agradou a todos. Qualquer treinador deveria estar ciente disso antes de abraçar estas funções. Nem os adeptos estao sempre certos, nem os treinadores são os supra sumo do futebol, que não podem ser criticados. No final tem que imperar o bom senso.

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