Tenho um filho de 12 anos. Sempre o vi feliz quando vê uma bola. Sempre o vi, quando é possível, com uma bola nos pés. Conhece melhor os jogadores que eu! Sabe melhor as classificações dos campeonatos de clubes das ligas europeias que eu! Sabe quem está lesionado, os resultados deste ano ou do ano passado, quem foi titular, quem não foi convocado, sabe os horários dos jogos, quando vê os jogos das seleções sabe os clubes dos jogadores, recorda-me os clubes onde jogavam e onde estão!

Quando vou de férias ou em viagem, o meu filho só me faz um pedido: Pai, podemos ir conhecer o estádio? Já fui ao Santiago Barnabéu, ao Emirates Stadium, Ao Easter Road do Hibernian, ao Estádio do Sport Lisboa e Benfica, ao Alvalade XXI, ao Dragão, ao São Luís do Farense, onde fui “obrigado” a assistir a um treino, ao Municipal de Portimão, onde um senhor nos abriu as portas porque não estava lá mais ninguém, e, como percebeu a paixão, foi buscar uma bola e fez de guarda-redes para o meu filho marcar umas grandes penalidades. Também já estive em Braga, em Guimarães, em Chaves, em Mirandela, em Viana do Castelo, em Monção, na Covilhã, em Castelo de Vide, em Portalegre, em Coimbra, em Aveiro, por onde passo, sempre o mesmo pedido:

Pai, podemos ir conhecer o estádio?

O meu filho joga futebol. Aos cinco anos um amigo levou-o para a escola de futebol dos maristas de Carcavelos, o Jonas, marido da diretora da creche, que insistiu em levá-lo e trazê-lo perante a paixão.
Jogou depois na Fundação dos Salesianos do Estoril, hoje está no Estoril Praia.
O meu filho nunca faltou a um treino porque estava frio ou chuva. O meu filho chegou a acabar um jogo com 39º de febre porque me escondeu que não estava bem, segundo me explicou depois, a equipa precisava dele.

O meu filho criou amigos no futebol. Não tem um único inimigo no futebol. O meu filho sabe que não marca golos, marca golos da equipa. O meu filho sabe que se não existirem adversários não poderá jogar. O meu filho aprendeu a ganhar, a perder, a reagir ao erro, a não desistir, a viver na vida e no futebol.
O meu filho partiu em Julho um braço a jogar futebol, o ortopedista no hospital disse-lhe não vais ter férias como habitualmente! A resposta foi simples: Mas consegui cortar a bola!

O meu filho tem treino amanhã. Saberá se foi convocado para a equipa de futebol de 11, sub-14 ou para o futebol de 9, sub-13.
Só na Associação de Futebol de Lisboa estão inscritas 518 equipas nos escalões sub-9 a sub-13, 6216 “jogadores” se considerarmos que cada equipa tem pelo menos 12, mas são mais.

Realizar-se-ão no sábado 259 jogos nos escalões sub-9 a sub-13 na Associação de Futebol de Lisboa.
1036 treinadores, 2 por equipa, mas são mais, decidirão os titulares, quem entra, quem sai, e também viverão essa paixão.
Teremos mais de 300 árbitros.
Pais serão 12432, todos a verem os filhos felizes e apaixonados.
Multipliquem tudo isto pelas várias Associações de Futebol e saberão quantos apaixonados haverá no país.

Sábado lá estarei. O meu filho estará feliz e apaixonado. E como eu gosto de vê-lo apaixonado e feliz!


Por favor, não estraguem a paixão do meu filho!

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