Projeto desportivo de uma das maiores referências do município de Odivelas

Um nome algo estranho, mas que não evitou um importante reconhecimento internacional. TOCOF soa-nos a algo demasiadamente específico e, em certa medida, algo que não associaríamos instintivamente ao futebol e ao desporto. É caso para dizer: “primeiro estranha-se, depois entranha-se”, não fosse este projeto uma das maiores referências do município de Odivelas.

O clube de futebol TOCOF deu os primeiros passos há oito anos e surgiu pela mão de Bruno Baptista e Valter Pinheiro, dois professores de Educação de Física, que passaram pelos escalões de formação de Benfica e Sporting. Uma metodologia e regras próprias, que visam tornar o futebol e, acima de tudo, a prática desportiva acessível a todas as crianças que queiram participar é o seu mote.

Clarificando, o acrónimo TOCOF – que significa Treino de Optimização das Competências do Futebolista – traduz-se num conjunto de metodologias e regras próprias que visam melhorar o desempenho dos atletas, assim como reduzir o aparecimento de lesões.

Num período em que o futebol português coloca como objetivos prioritários a conquista de títulos e a formação de atletas, do lado do TOCOF a prioridade é outra, como afirma Bruno Baptista: “Nós entendemos as coisas de uma maneira diferente. Que o indivíduo deve ser visto como um todo e não só como um possível jogador de futebol.” Olhar para o futebol de uma forma diferente parece ser a filosofia dos responsáveis por este projeto, onde o objetivo passa pela inclusão das crianças na prática desportiva, em especial crianças com necessidades educativas especiais.

A prevenção de lesões é uma das preocupações e um dos objetivos que visam distinguir o TOCOF, em relação a outros clubes ou entidades desportivas, e que começa a ser trabalhada desde muito cedo. “Nós temos um trabalho muito virado para a aprendizagem das capacidades coordenativas, logo no início das idades mais baixas. O facto de o atleta ser mais coordenado vai melhorar a sua forma de corrida, a sua velocidade e também a sua capacidade de evitar choques, ou seja, em tudo isto há aqui uma melhoria, uma forma de prevenção de lesões”, afirmou o treinador Bruno Baptista em entrevista a Record.

Cerca de 200 crianças praticam futebol no TOCOF, divididas por oito escalões, e o ‘pontapé de saída’ é dado pelo escalão denominado por “kinder garden” – Jardim de infância traduzido em português -, onde o objectivo passa por englobar crianças que queiram “participar no futebol, mas que supostamente ainda não têm idade e mesmo maturidade para jogar o dito desporto em si, então aí começa aquela fase em que as crianças jogam com o pé, jogam com a mão e fazem brincadeiras.” Os restantes sete escalões dividem-se em petizes, traquinas, benjamins, infantis, iniciados e terminando nos juvenis. Existe ainda uma equipa de futebol sénior que participa na liga nacional de futebol sete.

É nas regras de jogo que o TOCOF se distingue dos restantes projetos futebolísticos, apostando num conjunto de regras próprias que pretendem combater o automatismo que muito se verifica no futebol dos dias de hoje. “Criámos uma área [de jogo] onde nos escalões mais base, a equipa que está a defender não pode pressionar o adversário que está a sair com a bola, por forma a também possibilitar que o jogo seja feito com o pé e menos pontapé para a frente, por forma a evitar também aquelas goleadas que não são pedagogicamente corretas, que se vêem para aí em muitos campeonatos.” O trabalho realizado desde início deverá seguir os planeamentos formulados desde a criação do projeto.” Nós temos uma forma identitária de trabalhar que se baseia muito naquilo que referi. Numa primeira fase mais relacionada com a brincadeira, damos um treino sempre em todos os escalões respeitando as capacidades coordenativas, existindo já skills base que cada escalão tem que preencher.”

O factor diferenciador verifica-se também nas competições que são organizadas pelo TOCOF: “Nas nossas ligas de futebol de sete, o jogador pode eventualmente escolher se quer fazer o lançamento de linha lateral com a mão ou com o pé, tudo isso são coisas que nós próprios vamos colocando, que já são defendidas por outras pessoas.” O objectivo principal desta e de outras medidas visa contrariar e adaptar a prática do futebol tendo em conta os condicionalismos que cada criança possui. “Temos também um projeto virado só para o feminino onde temos 70 atletas do sexo feminino a praticar futsal ou futebol”, afirma o treinador, vincando a importância da questão da igualdade de género, que é também promovida por este projeto.

A inspiração vinda do astro holandês Cruyff

Surgido em 2009, o Clube de Futebol Metodologia TOCOF já por duas vezes levou os seus dois fundadores, Bruno Baptista e Valter Pinheiro, até à Corunha, ao Congresso Internacional de Treinadores, onde tiveram a oportunidade de apresentar o projeto, bem como trocar ideias com importantes figuras do futebol internacional, entre elas o holandês Johan Cruijff, figura mítica do Ajax de Amesterdão falecido em março de 2016. “É uma das pessoas a quem temos bastante respeito, por aquilo que foi enquanto jogador e enquanto treinador, e também de certa forma vamos buscar alguma da nossa identidade áquilo que ele fazia.”

A participação no referido congresso, assim como o reconhecimento internacional daí resultante, valeu-lhes a conquista da primeira medalha de Mérito municipal atribuída pela Câmara Municipal de Odivelas, colocando o clube e o município em patamares importantes do desporto nacional.

O interesse do gigante Manchester United

A evolução do clube e do projeto, segundo nos diz Bruno Baptista, tem sido positiva e extremamente gratificante: “Tem evoluído bem. Começámos num espaço totalmente diferente, num espaço praticamente devoluto, com sete miúdos, há oito anos sensivelmente, e neste momento temos 200 atletas e vê-se, consegue-se perceber nos atletas que estão há mais tempo no clube que mediante o trabalho que têm tido, as equipas tornam-se cada vez mais equilibradas.” E o exemplo claro do equilíbrio e da qualidade existente nos escalões do TOCOF comprovou-se o ano passado, com o Manchester United a vir recrutar um dos atletas. “Ele esteve três anos connosco. O ano passado participámos num torneio onde estiveram grandes equipas, tal como o Benfica entre outros, e daí esse miúdo recebe o prémio de melhor jogador do torneio. Para além de muitos clubes que andavam atrás dele, destacou-se o Manchester United, porquê? Ele tinha família em Inglaterra e ao acabar por lá ir, ficou no clube. Foi bom para o miúdo, nós temos essa perspectiva e vamos mantendo conversas com eles.”

A falta de um espaço próprio com melhores condições para treinar e conduzir todo o trabalho de coordenação e organização das várias tarefas constitui a principal dificuldade que o TOCOF enfrenta como nos diz Bruno Baptista: “O que precisávamos realmente neste momento era ter o nosso espaço. O campo melhorado, ou seja, haver ali uma obra de fundo onde criassem um sintético de raiz, para que pudéssemos ter então ali diariamente um campo para trabalhar, onde todos os escalões pudessem treinar. Isso sim, isso era de facto uma grande evolução para este clube.” A ausência de um local fixo onde seja possível orientar os treinos de todos os escalões do clube é a principal prioridade de futuro. Recorde-se que o TOCOF orienta os seus treinos em três escolas do concelho de Odivelas, o que obriga o clube a ter que andar constantemente com “a casa às costas”.

A formação e qualificação profissional dos envolvidos no projeto é outra das preocupações da direcção do clube que aposta em elementos com qualificações e formação superior na área do desporto e da Educação Física: “Temos uma base de pessoas com cursos de treinadores, com licenciaturas, mestrados, doutoramentos, o que é muito importante no funcionamento deste clube, que se calhar na maioria dos outros não existe. Uma solidez muito grande a nível científico e pedagógico.”

A curto e médio prazo as perspectivas e objectivos principais passam por garantir a solidez e a estabilidade do projeto, sem que haja um desvio da metodologia criada pelo TOCOF assim como dos valores fulcrais que guiam este clube. As ambições são manter a estabilidade conquistada, assim como a importante vertente social e inclusiva.

Temos aqui a prova viva que o futebol e o desporto não têm que gerar apenas e unicamente atletas de topo ou de elite. Dar a oportunidade a todos de participar e de escolherem se realmente querem fazer parte desta realidade, deveria ser uma das duas responsabilidade nos dias de hoje. Que venham a surgir mais projetos como o Clube de Futebol Metodologia TOCOF é o que todos esperamos, porque afinal de contas o futebol e a sua magia devem estar ao alcance de todos os interessados.

Fonte: Jornal Record

Autores: João Miguel Fernandes

Artigo de Valter Pinheiro e Bruno Baptista no FDF

 

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