O clube de futebol TOCOF deu os primeiros passos há oito anos e surgiu pela mão de Bruno Baptista e Valter Pinheiro, dois professores de Educação de Física, que passaram pelos escalões de formação de Benfica e Sporting. Uma metodologia e regras próprias, que visam tornar o futebol e, acima de tudo, a prática desportiva acessível a todas as crianças que queiram participar é o seu mote.

Clarificando, o acrónimo TOCOF – que significa Treino de Optimização das Competências do Futebolista – traduz-se num conjunto de metodologias e regras próprias que visam melhorar o desempenho dos atletas, assim como reduzir o aparecimento de lesões.

Qual é a filosofia do Clube em relação à formação?
O TOCOF é, até à data, um clube essencialmente de formação.  Formação de jovens atletas, mas também formação de pessoas.

Nesse sentido, estamos conscientes que a maioria das crianças que nos procuram para praticar futebol, não será profissional desta modalidade. Se isso acontece nos clubes de maior dimensão, quanto mais connosco.

Agora, o que é verdade é que todos quantos nos procuram para aprender a jogar futebol, serão futuros cidadãos e, nesse sentido, o nosso labor dever-se-á centrar mais no desenvolvimento de competências motoras, psicológicas e morais que possam favorecer a educação de jovens corporalmente cultos.

Assim, incidimos o nosso trabalho de treino em 4 grandes pilares:

1-Diversão, isto é, a prática desportiva infanto – juvenil deverá ser prazerosa, deverá gerar gosto na criança. É muito fácil concordar com esta linha de pensamento, porém, o mais complexo é tornar o treino num espaço divertido;

2-Desenvolvimento multilateral, isto é, entendemos que ninguém poderá jogar bem futebol ou outra qualquer modalidade se não tiver bem desenvolvido um amplo repertório motor. Primeiro é fundamental dominar os movimentos fundamentais, tais como, correr, saltar, lançar, agarrar, subir, descer rastejar… Quem tiver um largo domínio destas ações motoras, estará  preparado para jogar qualquer modalidade.

Por isso, não é de estranhar se num treno do TOCOF se virem as crianças a subirem um espaldar, ou a rastejar por baixo de uma mesa.

3-Desenvolvimento da Técnica, pois queiramos ou não, o jogo de futebol é difícil de aprender, porque procuramos “manipular” a bola com uma zona do corpo que não tem como objetivo agarrar, isto é, o pé. A mão foi concebida e desenvolveu-se para agarrar, para manipular. Todavia, o pé serve essencialmente para a marcha. Ora no futebol, contrariamos esta situação, pois utilizamos os pés simultaneamente para a marcha e para manipular uma bola.

Então, se não é natural controlar uma bola com os pés, é fundamental que se treine afincadamente esta capacidade. Bem sabemos que hoje em dia, em decorrência do advento de novas correntes de treino, o ensino da técnica caiu em desuso.

Para nós, o ensino e treino da técnica é fulcral, é determinante, é mesmo condição “sine qua nom” para se poder jogar bem futebol

4- O treino da tomada decisão, ou seja, que os miúdos possam entender o que devem fazer em cada fase e momento do jogo. Não se trata de robotizar ninguém, de adestrar, mas de ajudar os miúdos a decidirem melhor.

Estes são os pilares da Metodologia TOCOF.

Quantos atletas tem na formação e número de equipas por escalão?
Como não participamos em provas federadas, temos por opção, uma equipa por escalão. Agora, a título de exemplo, podemos dizer que temos 20 atletas na equipa de traquinas… Atualmente, temos sensivelmente 150 atletas, entre rapazes e raparigas.

Existe uma forma de jogar igual para todas as equipas dos escalões de formação?
Essa é uma eterna discussão, diríamos que já se tornou um mito. Nós aceitamos e respeitamos outras formas de pensar, mas em nossos entender não faz muito sentido dizer-se que temos uma forma de jogar para todos os escalões. Isso é Possível em clubes que têm a capacidade de recrutar os melhores, caso do Sporting, Benfica, Porto.  Estes clubes, pela grandeza que têm, podem ter uma forma similar de jogar para todos os escalões etários, porque recrutam os melhores jogadores, Todavia, a esmagadora maioria dos clubes jogam com os atletas que aparecem nas captações, logo, é possível que tenhamos uma geração de enorme qualidade e outra com menos capacidade. Será vantajoso procurar jogar do mesmo modo? Parece-nos que não. No TOCOF, o que pretendemos é que se encontre uma forma de jogar que se adapte e adeque aos atletas que possuímos. O Fundamental é que as crianças se sintam confortáveis e competentes a jogar.

Isto é, escolhemos para cada equipa, uma forma de jogar que se adapte aos atletas que temos.

A título de exemplo: Nos juvenis, posso pretender começar a construir jogo a partir dos defesas, porém, se meus atletas revelam enormes debilidades técnicas, fará sentido jogar assim? Vou colocar os defesas numa posição desconfortável, pois terão de executar ações para as quais não se sentem proficientes. Se calhar, é preferível bater o pontapé de baliza para a frente. Agora, como atualmente se vive o síndrome do Tiki- Taka, isto é, para muitas pessoas jogar bem é jogar sempre com a bola no chão, então sabemos que vamos estar conotados com o jogar mal.

São opções.

Como são os treinos ao nível do futebol infantil e juvenil?
Como te dissemos anteriormente, em todos os nossos treinos há aspetos que têm de aparecer sempre: exercícios que potenciem o desenvolvimento multilateral, exercícios que potenciem a melhoria das ações técnicas e muito jogo… O jogo tem um misto de momentos livres, sem intervenção do treinador e momentos em que o treinador intervém para corrigir os miúdos.

Procuramos exercícios que potenciem a diversão, que promovam sucesso na tarefa e sobretudo, exercícios que impliquem pouco material, poucos tempos de espera e que maximizem o pouco espaço que temos.

Mas o grande foco vai para a realização de exercícios representativos do jogo, isto é, exercícios que coloquem os atletas perante as dificuldades que vão encontrar na competição, pois só desta forma estarão a desenvolver ferramentas que lhes permitam fazer face aos constrangimentos do jogo. Um exemplo prático do que acabamos de dizer: se tenho como objetivo construir jogo ofensivo a partir dos defesas centrais e sei que vou sofrer logo pressão do adversário, então deverei encontrar exercícios que ajudem os meus atletas a resolver esta situação problemática.

Ou seja, no fundo queremos exercícios que desenvolvam competências que ajudem a resolver os problemas do jogo, que sejam simultaneamente divertidos, que reclamem a utilização de pouco material e que gerem pouco tempo de espera. Isto dito assim, até parece fácil.

Qual é o perfil de jogador definido para a formação e clube?
No TOCOF não selecionamos atletas nem excluímos ninguém por falta de qualidade técnica. Por isso, o Perfil do jogador TOCOF passa essencialmente por atletas agressivos, aliás assertivos. Não queremos potenciar atos de violência, nem faltas maldosas, mas queremos atletas aguerridos, intensos quando não têm a bola, que pressionem muito o adversário.

Queremos também atletas com elevadas capacidades de aprendizagem, que estejam sempre disponíveis para receber novos estímulos. Temos imensos exemplos de atletas que chegam às nossas mãos com parcos recursos técnicos e táticos e que, passados meses, se tornam nuns dos mais valiosos atletas. Recordo-me de uma miúdo que nos apareceu para jogar futebol pela primeira vez aos 16 anos. Revelava índices de descoordenação elevadíssimos. Porém, como tinha imenso gosto em aprender e levava o treino nos limites, transformou-se num defesa central muito forte.  Todos os colegas reconhecem que ela fez uma evolução fantástica e têm-no como um exemplo.

Como são os vossos treinadores enquadrados em termos de perfil por escalão?
Praticamente, todos os nossos treinadores são licenciados ou alunos de Educação Física e Desporto, fruto da ligação que temos com o ISCE. Temos também treinadores a fazer mestrado em treino de Futebol.

O que queremos do treinador TOCOF é que seja essencialmente um Pedagogo. Que seja paciente e tolerante perante o erro, que seja elogioso, que seja entusiasta e intenso durante o treino. Não queremos treinadores apáticos, passivos, amorfos. Como treinamos pouco tempo, temos de tornar o treino o mais dinâmico possível e isso só pode ser cumprido se o treinador for dinâmico, intenso e entusiasta.

Claro que temos uma preocupação na colocação dos treinadores por escalão. Como a maioria dos nossos técnicos são muito jovens, na casa dos 20 anos, alguns deles não devem ser colocados a treinar equipas de juvenis, pois há uma enorme proximidade de idades, o que pode gerar problemas de liderança. Mas a idade não pode nem deve ser um fator limitador da colocação dos treinadores num escalão, mas é fundamental que coloquemos os treinadores numa posição confortável, onde se sintam seguros e competentes.

Agora, o nosso perfil de treinador é claro: deve ser entusiasta, paciente, tolerante mas também exigente.

Como é o processo de captação e prospeção?
Em primeiro lugar não fazemos seleção dos melhores, isto é, todos podem jogar no TOCOF independentemente das suas qualidades. Ao contrário do que algumas más línguas apregoam, não o fazemos assim por questões de natureza financeira, mas porque acreditarmos que todos merecem jogar futebol, porque recebemos imensos miúdos que não têm grandes capacidades para jogar futebol e também não podem pagar a mensalidade, todavia, não os dispensamos.

Como captamos mais miúdos? Simples…onde estão os miúdos no concelho de Odivelas? Nas escolas ou a jogar nos bairros. É mesmo aí que os vamos captar, numa política de deslocalização do clube, isto é, o TOCOF não espera que os miúdos venham ter connosco, mas somos nós que vamos ao seu encontro…deslocamo-nos às periferias do concelho em busca dos que desejam praticar futebol.

Nos escalões de formação, Ganhar ou Formar?
Ganhar e Formar não podem e não devem ser indissociados, pois caso contrário estaremos a cometer um enorme erro conceptual, isto é, se acharmos que estas coisas são inseparáveis começaremos a dizer que aqui neste clube o que interessa é formar, dando a ideia que podemos perder à vontade.

Posto isto, somos da opinião que formar bem implicará ganhar e perder, porque se desejamos potenciar jovens atletas para a alta competição e formar cidadãos para o futuro, é fundamental que em alguns momentos se percam jogos, pois é na adversidade que nos transcendemos, é nas dificuldades que nos superamos. Se passarmos os escalões de formação a golear por 25-0, não estaremos a preparar ninguém para a competição ou para a vida.

É por isso que urge acabar rapidamente com as goleadas dantescas que não servem os interesses de ninguém.

O clube faz separação entre equipas de formação e competição? Como é feita a integração?

Para nós não existe esse conceito. Acreditamos que pode existir equipas não federadas e federadas mas todas são equipas de formação. Por isso, para nos não faz sentido falar se em competição e formação.

Todavia, neste momento, por diversas razões, ainda só temos equipas não federadas.

De que forma é feito o acompanhamento de desempenho escolar dos atletas?
Vamos acompanhando as notas escolares dos nossos atletas, pois mantemos uma relação de enorme proximidade com os pais. Mas atenção: somos totalmente contra a punição das crianças através do desporto. Quando acredito que retirar as crianças do futebol os ajudará a melhorarem as suas notas escolares. Não se diz que a prática desportiva é tão importante quanto comer ou dormir? Alguém pune os seus filhos com privação de comida ou de sono quando têm mais notas? NÃO.

Retirem antes os telemóveis, as consolas, as saídas à noite…

Que avaliação faz dos quadros competitivos ao nível da formação em Portugal, tem sugestões de melhoramento?
Em primeiro lugar não somos arautos da desgraça nem temos a convicção de que tudo está mal. Verdade seja dita que se têm dado alguns passos em Portugal na melhoria dos quadros competitivos, porém, muito há a fazer.

Já tivemos a oportunidade de dar nosso contributo, junto de um dos vice presidentes da AFL e até foram bem acolhidos. Mas é fulcral que os clubes também desejam essas alterações.

Os petizes e os traquinas não estão sob a égide da AFL, mas urge criar quadros competitivos regulares, não federados, em que se definam bem regras a aplicar e formatos de jogo. Ficamos loucos ou vermos jogos de petizes de 7X7. Neste escalão dever-se-ia no máximo dos máximos jogar-se 5X5, por razões que aqui não cabe explicar. Convidamo-vos a lerem as propostas da Metodologia TOCOF….não são feitas com base das nossas opiniões ou crenças, mas com base da evidência científica.

Ao nível dos campeonatos nacionais, faz sentido terem o seu início em Agosto? E as férias dos miúdos? E dos treinadores? Afinal de contas, ninguém é profissional. Bem sei que o início nestas datas é para cumprir o desiderato das seleções nacionais, mas a maioria dos miúdos não tem qualquer hipótese de pisar estes palcos…

Isto traz problemas a nível familiar, porque as férias ficam desde logo comprometidas.

Ao nível do desequilíbrio entre opositores, sobretudo nos benjamins e infantis, muito há para ser feito, a fim de se evitarem goleadas vexatórias. Temos a noção clara que é um assunto de resolução muito complexa, mas não podemos permitir resultados de 20-0, sobe pena de não estarmos a contribuir para o desenvolvimento de ninguém.

É verdade que muitas destas goleadas poderiam ser evitadas se houvesse por parte dos treinadores envolvidos uma conversa prévia, no sentido de se encontrarem estratégias para minorar esta situação. Que estratégias? A equipa mais forte podia pressionar apenas a partir do seu próprio meio campo defensivo. É bem verdade que, em alguns campos, isto já acontece.

Temos de criar quadros competitivos onde os muito bons (tradicionalmente já sabemos quem são), possam jogar mais vezes entre si. Pergunta-se: então não era mais proveitoso Sporting , Benfica e Belenenses jogarem 6 ou 8 vezes entre si? Quem diz estes diz os outros clube de 2ªlinha, que tradicionalmente terão sempre boas equipas, por exemplo o Real SC, o Sacavenense.

Voltamos a frisar que este assunto não é de fácil nem consensual resolução, até porque já vi responsáveis de clube mais modestos a se mostrarem confortáveis com as goleadas que sofrem. Alguns dizem que ajudam a fortalecer o carácter das crianças.

Devíamos pensar na alteração de algumas regras: na equipas de futebol 7, dever-se-ia criar uma área de não pressão, aquando os pontapés de baliza, a fim de facilitar o sair a jogar. Se sabemos que as crianças nestas fases têm dificuldades no domínio da bola, como podemos permitir que o adversário faça uma pressão tão alta?

Seguem o site FDF Futebol de Formação, como avalia o nosso trabalho e ocorre-lhe alguma sugestão?
O FDF está a fazer um trabalho importantíssimo na defesa do futebol de formação em Portugal. Em pouco tempo, o FDF passou a assumir-se como uma referência no debate do futebol de formação. O vosso site é hoje um local de excelência para todos quantos querem aprender mais sobre desporto infanto juvevil.

Faz falta em Portugal, no Desporto com Jovens uma ADF (Andebol) BDF(Basquetebol), VDF (Voleibol).

A ti Fernando, um bem haja por te dedicares, a título gracioso, a esta causa do futebol jovem.

Válter Pinheiro e Bruno Baptista - Os nossos entrevistados

Data de Nascimento: :  22/06/1982 e 5/04/1981
Naturalidade:  Lisboa
Clubes representados: SL Benfica, Sporting CP, Real SC, CF Unidos e AF Lisboa
Cargo: Coordenadores
 Curso/Formação:  Doutoramento/Mestrado
 Clube: CFM TOCOF

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Obrigado ao CFM TOCOF e aos seus Coordenadores Válter Pinheiro e Bruno Baptista por esta entrevista, partilha de conhecimento e pela mensagem que nos deixam, mais conhecedores e enriquecidos sobre o futebol de Formação em Portugal.

Aos nossos leitores esperamos que tenham gostado, e podem deixar uma mensagem aos Coordenadore Válter Pinheiro e Bruno Baptista nos comentários aqui no site. Obrigado a todos.

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