O legado de Johan Cruyff para o Futebol de Formação


O legado de Johan Cruyff (1947-2016) para o futebol de formação

O holandês Johan Cruyff, falecido há três semanas (24-mar-16), foi um dos expoentes máximos do futebol enquanto praticante e treinador. É consensual a sua importância na evolução do jogo, particularmente pelo trabalho que desenvolveu no Ajax e no Barcelona, através da ideologia que herdou de Rinus Michels e aprimorou nos seus tempos de treinador: o futebol total.

O futebol perdeu uma grande referência mundial, mas o seu legado perdurará. No dia do seu falecimento, um diário desportivo português publicou algumas das suas célebres frases. Com o prejuízo de algum erro de tradução ou citação, até porque não conferi se as frases correspondem integralmente ao conteúdo original, o objetivo deste artigo é explorar algumas das ideias de Johan Cruyff e perceber o que podem acrescentar ao futebol de formação praticado em Portugal e no resto do mundo.

1) Técnica não é poder fazer 100 toques sem deixar cair. Qualquer um pode fazer isso se treinar e até pode trabalhar no circo. Técnica é passar a bola com um toque, à velocidade correta, no pé certo do colega.

As ações técnicas devem servir os propósitos da equipa, em função daquilo que a dinâmica do contexto (jogo) oferece, não devendo ocorrer somente em função das expectativas do jogador e/ou do público. Na maioria das vezes, a técnica (receção, passe, condução, drible/finta, remate, etc.) é ensinada de modo analítico, contornando cones ou varas, porém, quando temos um, dois ou mais adversários pela frente, o nível de complexidade é muito superior e, não raras as vezes, vemos miúdos com uma boa relação com a bola em situação descontextualizada incapazes de executar corretamente em contexto de jogo.

2) Na minha equipa, o guarda-redes é o primeiro avançado e o avançado o primeiro defesa.

Em processo ofensivo, o guarda-redes moderno tem de ser um autêntico jogador de campo ou, pelo menos, com competências técnico-táticas aproximadas. Para além das suas capacidades em defender a baliza, a sua preponderância na construção de jogo não deve ser desconsiderada. Por sua vez, um avançado ou extremo não pode apenas saber marcar golos ou criar situações de finalização; tem também de saber defender, no sentido de criar uma unidade funcional ao nível da organização defensiva da equipa. Basicamente, todos os jogadores devem saber atacar e defender, pelo que é relevante que os miúdos joguem em diversas posições ao longo do processo formativo.

3) O que é velocidade? A crítica desportiva confunde velocidade com visão. Se eu começar a correr antes dos outros vou sempre parecer mais rápido.

Confunde-se frequentemente a capacidade física velocidade com a coordenação percetivo-motora. Mesmo na prospeção/captação de jogadores é muito mais fácil avaliar a velocidade de deslocamento de uma criança/jovem do que entender as suas capacidades em termos de leitura do jogo, nomeadamente a capacidade de antecipação. Embora sejam treináveis, as capacidades percetivas revelam-se geralmente bastante cedo nas crianças e constituem um aspeto basilar para o ato tático. Tendo em consideração as exigências do futebol contemporâneo, ser veloz a correr ou em condução de bola por si só não chega. A celeridade na leitura do jogo e a antecipação do que irá suceder aperfeiçoam-se mais efetivamente através da manipulação das componentes do jogo (i.e., número de jogadores por equipa, dimensões do campo, balizas/alvos, regras, etc.), em pleno respeito pelos princípios da especificidade e da representatividade.

4) Há apenas um momento em que podes chegar a tempo. Se não estiveres lá, estarás sempre adiantado ou atrasado.

O enfoque na capacidade de leitura do jogo é uma constante na perspetiva de Cruyff. Um jogador não precisa de ser um “monstro” em termos físicos para jogar bem. Ser inteligente e perceber o jogo são qualidades essenciais no futebol e que devem ser potenciadas no decurso do processo formativo.

5) Numa partida de futebol está estatisticamente provado que os jogadores têm a posse de bola por 3 minutos, em média. Então, o mais importante é o que fazer nos 87 minutos em que não tens a bola. Isso é o que determina se és um bom jogador ou não.

Mais importante do que correr muito é saber correr, isto é, estar no sítio certo no momento certo. O ensino progressivo de regras de ação (princípios de jogo) é normalmente um meio adequado para criar boas dinâmicas coletivas numa equipa. No entanto, há sempre a tendência para se sobrecarregar a criança/jovem com princípios, subprincípios e subprincípios dos subprincípios, o que, em última instância, condiciona aquilo que mais se deve preservar no futebol de formação: o desenvolvimento da criatividade tática. Para haver criatividade tem de ser dada liberdade ao jovem aprendiz, inclusivamente liberdade para errar.

6) Há apenas uma bola, precisas de a ter.

A equipa que tem a bola só sofre golo se a introduzir na própria baliza. Se houver qualidade individual e coletiva na fase ofensiva, aprende-se a gerir um dos aspetos mais sensíveis do futebol atual: os ritmos de jogo. Além disso, os miúdos que têm medo de ter a bola na sua posse nunca desenvolverão competências para efetivamente jogar futebol. O afastamento da modalidade tornar-se-á praticamente inevitável a médio/longo prazo.

7) Se tens a posse da bola, precisas fazer com que o campo seja o maior possível. Se não a tens, precisas de fazer com que fique o mais pequeno possível.

Os princípios espaço (“campo grande”) e concentração (“campo pequeno”) são fulcrais para a aprendizagem do jogo coletivo. Contudo, ao contrário do que é comum, os treinadores devem dar liberdade à criança/jovem para perceber que (1) se houver mais espaço, há mais tempo para ler o jogo e executar em conformidade e (2) se estivermos mais perto dos nossos colegas, torna-se mais fácil defender, devido à existência de coberturas defensivas e equilíbrios e, assim, recuperar a posse de bola. As soluções devem ser descobertas, não cedidas gratuitamente.

8) Os jogadores hoje em dia só sabem chutar com o peito do pé. Eu podia chutar com o peito, com a parte de dentro e com a parte de fora de ambos os pés. Por outras outras palavras, eu era seis vezes melhor do que os jogadores de hoje.

Johan Cruyff refere-se à variabilidade funcional do movimento. Quanto mais diversificado for o reportório motor da criança/jovem, melhor será a sua adaptação ao jogo ou, por outras palavras, melhor corresponderá às diferentes solicitações que emergem do contexto. O problema é que ainda persiste a norma de ensinar a receção e o passe com a parte interna do pé, a condução de bola com a parte externa e o remate com o peito do pé. Se todos seguíssemos a norma à risca, não teríamos, por exemplo, um Ricardo Quaresma a marcar golos de “trivela” ou um Cristiano Ronaldo a marcar golos de toda a maneira e feitio. Em suma, o treinador do futebol de formação deve estimular e a variabilidade funcional do movimento e a lateralidade (membros dominante e não dominante) das crianças/jovens na aprendizagem e no treino do jogo.

9) Acho ridículo quando um talento é rejeitado com base em estatísticas de computador. Com base nos critérios do Ajax de hoje, eu teria sido rejeitado. Quando tinha 15 anos não conseguia chutar uma bola a mais de 15 metros com o pé esquerdo e talvez uns 20 com o direito. A minha qualidade, técnica e visão não podem ser detetadas por um computador.

A qualidade subordinada à técnica e à visão (tática) em detrimento do físico. No Barcelona coexistiram Messi, Xavi e Iniesta e assumiram grande parte das despesas do sucesso de uma das melhores equipas de futebol de sempre. No futebol de formação deve-se entender que o crescimento e a maturação dos jovens se processam a ritmos distintos e a exclusão de alguns com base em parâmetros antropométricos e biomecânicos pode ser um erro crasso.

10) Jogar futebol é muito simples, difícil é jogar um futebol simples.

Um jogador de futebol feito deve saber jogar simples, sobretudo, por ser eficaz nos diversos momentos do jogo. Nas primeiras fases de aprendizagem (6-9 anos) não é expectável que a criança jogue simples, nem tão pouco que os treinadores “cortem” por completo a necessidade de o aprendiz brincar e de se recrear com a bola. Se a criança perder a bola ao tentar um drible e der golo para a equipa oponente, a criança será a primeira a compreender que comprometeu os companheiros. Errou, mas não deverá ter medo de repetir ou tentar um drible diferente, caso contrário nunca aprenderá. À medida que a responsabilidade for aumentando com a idade, a liberdade para errar diminui substancialmente. O tempo em que se poderia driblar/fintar não voltará mais e estará ultrapassada a “janela de oportunidade” para desenvolver a relação com a bola. Para que, no futuro, um jogador possa “jogar simples” (e bem), terá de passar por uma série de etapas que, no entanto, poderão ser “queimadas” se o treinador na formação encarar o treino e a competição como se estivesse a disputar a Champions League.

Cruyff, obrigado e descanse em paz.

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