E pronto… aconteceu o que todos estavam à espera e que poucos fizeram para o evitar, uma agressão a um árbitro publicamente divulgada por todos os meios de comunicação social e que teve a mesma dimensão mediática que um erro de arbitragem teria se tivesse acontecido no jogo Benfica vs Porto e influenciasse o resultado final.

Como muitas vezes tem sido abordado nos artigos do Futebol de Formação, já não se trata da falta de condições de segurança ou policiamento nos jogos de futebol, trata-se de princípios e valores de uma sociedade que se transformou negativamente, muito pelas estratégias de comunicação agressivas dos “grandes” do futebol português, que visam unicamente a manipulação das massas.

Por exemplo, no final do jogo mediático deste fim de semana todos os agentes desportivos deram os parabéns à equipa de arbitragem, mas horas depois, os departamentos de comunicação desses clubes, divulgaram publicamente imagens de erros graves cometidos pelos mesmos seres humanos que anteriormente tinham sido valorizados… vergonhoso e manipulador dos dirigentes, treinadores, jogadores e pais de todo o nosso Portugal, Campeão Europeu de Futebol, mas garantidamente nos últimos lugares do respeito pelos valores positivos do Desporto, que depois se vão traduzir no triste número “43”.

É sobre isto que temos de reflectir e perceber o que todos podemos fazer… mudar as mentalidades dos adultos é muito difícil, mas dos jovens é fácil, basta demonstrar o outro lado do Desporto, a competitividade positiva, o respeito pelas regras, pelos adversários, pelos adeptos e pelos árbitros.

O Plano Nacional de Ética no Desporto está certamente disponível para ser um parceiro de cada individuo ou organização nesta tentativa de mudança de mentalidades e na construção de uma cultura desportiva positiva, que por certo vai influenciar a nossa sociedade.

O Desporto move nações, pela positiva, à semelhança do que o Nelson Mandela fez com rugby ou pela negativa, como tem-se visto ultimamente em Portugal.

Não podemos continuar a ser “carneirinhos” e a nos deixar manipular… somos seres pensantes e como Eça de Queiroz um dia disse:

“Não tenha medo de pensar diferente dos outros, tenha medo de pensar igual e descobrir que todos estão errados!”

Se continuarmos a assobiar para o lado, qualquer dia vai acontecer algo mais grave e depois vamos lamentar o sucedido… Não podemos deixar isso acontecer, há que “olhar” para a frente e perceber que desta forma, corremos o risco de nos tornarmos num país de terceiro mundo… é esta realidade que queremos para o futuro dos nossos filhos?

É fácil prever que, inevitavelmente, uma consequência imediata destas 43 agressões, será a dificuldade em motivar jovens a optar pela carreira de árbitro, o que contrasta com o constante aumento do número de equipas do futebol de formação, resultando na falta de árbitros para fazer face a todos os jogos.

Perante este cenário cada vez mais real, e porque os exemplos positivos são para adoptar, na Islândia não existiam árbitros suficientes para fazer face a todas as competições e para suprir essa falta, a Federação Islandesa de Futebol definiu que, “no caso de um árbitro federado não poder estar presente, num determinado jogo de futebol de camadas jovens, será um membro do clube local ou um pai ou mãe dos jogadores presentes a arbitrar o jogo.”

Como entendemos que se deve antecipar o que poderá acontecer, elaboramos o Guia Pratico de Arbitragem para Agentes Desportivos e Pais de jogadores do Futebol de Formação, baseado no “Manual do Árbitro”, editado pelo IPDJ em 2005, de forma a ajudar todos os Agentes Desportivos e Pais de jogadores que tenham de vir a assumir a arbitragem de um jogo de futebol:

     “O árbitro que for escolhido deve apresentar as seguintes características:

a) Boa condição física

  • Para acompanhar de perto a dinâmica das movimentações dos jogadores e julgar à vista as situações por estes criadas.
  • Para manter a postura corporal de observação e acompanhamento das situações competitivas;

b) Boa condição psicofisiológica

  • Para ter uma memória visual.
  • Para ter uma boa percepção selectiva;
  • Para ter uma boa velocidade de reacção;

c) Boa condição emocional

  • Para ter um autocontrolo sobre as suas reacções emotivas;
  • Para sentir confiança na sua imagem enquanto árbitro.

d) Boa condição técnica

  • Para fazer apelo permanente e actualizado às referências técnicas que possui sobre a modalidade;
  • Para ter bom domínio dos códigos gestuais usados na modalidade.

Para que a tarefa de arbitrar possa ser bem sucedida, é indispensável que o árbitro actue com profunda convicção, seguindo as seguintes normas:

  1. Manter os olhos sobre o jogo, para analisar os antecedentes da acção empreendida pelos jogadores e de decidir, caso haja infracção, quem foi o infractor.
  2. Decidir de acordo com o seu critério de avaliação, para garantir uma arbitragem correcta e imparcial. Ceder à pressão de treinadores ou de outros (pais incluídos) é alterar o seu critério e deixar de ser imparcial.
  3. Evitar qualquer discussão com jogadores, treinadores, dirigentes ou público, evitando desvios de concentração que irão reflectir-se negativamente na consistência das decisões.
  4. Ignorar todas as provocações, que apenas visam criar situações de insegurança quanto à avaliação das situações de jogo.
  5. Assumir as decisões.
  6. Evitar dar nas vistas, ser discreto durante o jogo é um factor relevante na avaliação da prestação de um bom árbitro.

     Na condução do jogo, o árbitro deve utilizar critérios pedagógicos adequados à categoria de cada competição de modo a respeitar as necessidades dos atletas de acordo com o seguinte:

  1. Juniores G, F e E (Petizes, Traquinas e Benjamins), deixar jogar. A actividade deve ser contínua, sendo apenas interrompida perante faltas que afectam a forma de jogar dos jogadores.
  2. Juniores D (Infantis), mesmo critério que o escalão anterior, mas o sancionamento das faltas deverá ser feito em situação de 1 contra 1 com rigor acrescentado.
  3. Juniores C (Iniciados), o critério anterior deve ser ampliado, podendo haver alguma correcção necessária de forma a incentivar a boa prática da modalidade dentro dos pares.
  4. Juniores B (Juvenis), manter e valorizar os pontos dominantes dos critérios anteriores, dando importância as faltas cometidas sem necessidade.
  5. Juniores A, aplicar as Leis de Jogo na totalidade. Interpretar com rigor as situações que afectam o espirito desportivo, o espirito do jogo e o respeito pelos opositores.

     Respeitando estas normas, por certo será uma boa arbitragem onde o árbitro, fazendo respeitar o espirito do jogo, deixa jogar os jogadores, actuando em total dependência dos factores exteriores ao seu desempenho e em respeito pelos jogadores que, também eles, cumpriram com os seus deveres para com o árbitro, os adversários e o espirito desportivo.”

Como se pode verificar, “arbitrar” é uma tarefa fácil e simplista que qualquer pessoa pode desempenhar, mas se mesmo assim alguém sentir que não se enquadra ou não tem as competências exigidas para desempenhar tão nobre função, na próxima vez que criticar um árbitro publicamente, pense duas vezes sobre as implicações dessa atitude, não vá o “diabo tecê-las” e um dia destes lhe calhe a “fava” de arbitrar um jogo de futebol, correndo o risco de ser criticado, enxovalhado, acusado, desrespeitado e possivelmente agredido.

 

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