Gaspar Ferreira, a psicologia e a motivação no desporto


Futebol de Formação – De que forma a componente motivacional está ligada ao Desporto?
Gaspar Ferreira – O rendimento de uma equipa depende de um conjunto alargado de fatores. Um desses fatores é a motivação. Se a direção, o treinador e os atletas não estiverem convenientemente motivados não atingiremos a excelência, nem os resultados desejados. Para isso, precisamos de conhecer profundamente os atores envolvidos, a sua estrutura de personalidade, os seus perfis motivacionais; precisamos de saber o que os move. Se descobrirmos o que os move, conseguimos integrá-los na equipa mais rapidamente e conseguimos que trabalhem mais e melhor sem elevar a carga física e mental. Quando as pessoas teem a oportunidade de realizar os seus motivos de vida ficam entusiasmadas, não se cansam e vão buscar energias que nem imaginavam ter. É esse o objetivo da intervenção na área da motivação, o de tornar os atletas mais felizes, mais produtivos e mais resilientes.

Futebol de Formação – O que motiva qualquer indivíduo?
Gaspar Ferreira – Os estudos mais recentes evidenciam que não somos motivados apenas pelas cinco necessidades que Abraham Maslow identificou na sua famosa pirâmide: necessidades fisiológicas, de segurança, sociais, de estima e de realização individual. A ciência diz que somos mais complexos do que isso, que cada um de nós é motivado por dezasseis motivos de vida. E, ao contrário do arranjo da pirâmide de Maslow, que sugere que somos todos iguais, o psicólogo Steven Reiss verificou que cada um de nós organiza a sua pirâmide de motivações de forma diferente e única. E isso levanta muitas questões e ajuda a resolver muitos problemas. Agora percebemos melhor de onde nascem os conflitos entre as pessoas, entre um atleta e um treinador, por exemplo. Sabemos que se os indivíduos apresentarem uma organização idêntica nos seus perfis motivacionais, tenderão a sentir mais afinidade. Assim, se conhecermos os perfis de motivação de cada um dos atletas, isso permite-nos, por exemplo, escolher conscientemente as palavras ou os gestos certos para motivar cada atleta de forma personalizada, ou operacionalizar diversas estratégias para tornar uma equipa mais solidária e eficiente.

Posso tentar exemplificar com alguns exemplos sobre o papel dos 16 motivos de vida na performance pessoal e profissional. Sendo certo que não apliquei o questionário RMP a estes profissionais em concreto, arriscaria afirmar que:

O treinador Paulo Bento precisa de satisfazer a sua necessidade de Tranquilidade e de Ordem e denota-o frequentemente no seu discurso. Jogadores mais espontâneos e com gosto pelo risco, no entanto, poderão ter dificuldade em adaptar-se a este estilo de liderança.

Cristiano Ronaldo, por outro lado, procura satisfazer o motivo de vida Vingança, necessita de competir, que lhe apontem um desafio em que possa mostrar que é o melhor, que está ao seu alcance uma marca ainda não atingida, que o distinguirá de todos os outros. Estimulá-lo pela dimensão Vingança será muito mais efetivo do que estimulá-lo pela vertente do apelo ao trabalho em equipa, mais eficaz em jogadores com menor necessidade de Independência.

Alguns jogadores dão o seu melhor pelo motivo de vida Família e por isso se tatuam com o nome do filho. Outros atletas, porém, não são sensíveis a este motivo de vida, mas podem automotivar-se recorrendo ao motivo de vida Romance, inspirando-se numa conquista amorosa.

Há atletas movidos pela honra, pela pertença a um grande clube, pelo simples amor à camisola, e estes, em certos casos, podem até ficar desmotivados se encontrarem um treinador mais expedito (menos sensível aos códigos de honra) ou até se os procurarem incentivar com uma recompensa monetária.

Futebol de Formação – A componente da motivação é também importante nos Treinadores?
Gaspar Ferreira – Um treinador que não souber motivar os seus atletas, perde capacidade de liderança. Um treinador que não conhecer bem os seus atletas do ponto de vista da motivação, não será capaz de motivá-los eficazmente e poderá conduzi-los ao burnout, à exaustão física e mental.
Por outro lado, o treinador atual precisa de se conhecer a si próprio, precisa de saber que fatores moldam e determinam o seu próprio comportamento. Hoje é possível avaliar e identificar de forma científica os drives motivacionais individuais e mapear de uma forma simples e legível a personalidade e a estrutura motivacional de um treinador.

Em síntese, se o treinador não se conhecer, cometerá o erro de inadvertidamente apelar aos seus próprios valores para mobilizar os outros e não saberá tirar partido dos motivos de vida mais eficazes em cada atleta. Se o treinador conhecer como é que o atleta valoriza cada um dos 16 desejos básicos e como os combina entre si, será capaz de prever as características da sua personalidade, os seus valores, as relações que desenvolve e o seu comportamento em situações de vida real, com uma validade significativa em termos estatísticos. O treinador pode, assim, incorporar na estrutura do planeamento dos treinos esta componente motivacional, de maneira a desenvolver cada atleta de forma específica.

Futebol de Formação – Faz falta um psicólogo num clube?
Gaspar Ferreira – Um clube é uma organização complexa que normalmente procura resultados de excelência: procura vencer. E é por isso faz falta um psicólogo. Faz sempre falta um profissional que ajude a que cada um possa dar o seu melhor e a que todos sejam capazes de dar as mãos, tendo em vista os objetivos coletivos.

Futebol de Formação – Todos os clubes deviam ter?
Gaspar Ferreira – Os clubes competitivos e vencedores teem mais do que um psicólogo ao seu serviço. Na área da motivação, e isto é tão importante na formação como na competição ao mais alto nível, é conveniente que os clubes que não dispõem de um profissional a tempo inteiro, possam recorrer pelo menos a serviços de consultoria de profissionais certificados, de modo a tirarem melhor partido dos seus recursos humanos.

Gaspar Ferreira - O nosso entrevistado

gaspar ferreira

*Licenciado em Psicologia pela FPCEUP. Master Certified pela R.M.P. Percurso profissional: trabalhou como Psicólogo no Exército Português; foi Psicólogo e Diretor Pedagógico no Futebol Clube do Porto; foi responsável do Dep. Recrutamento e Seleção e Coordenador de Formação de uma reconhecida empresa de consultoria e formação. Atualmente desenvolve a sua atividade como consultor e formador comportamental em organizações de referência nacional e internacional. Em contexto desportivo atua na área motivacional, junto de atletas, treinadores e clubes. Céd. Prof. OPP 11013. Inscrito na Plataforma de Psicólogos em Contexto Desportivo.

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