No futebol de formação é de primordial importância que, primeiramente, se conheçam os jovens atletas, antes até de conhecer o jogo e o que este representa. São estes jovens que temos à nossa disposição diariamente e mediante a confiança dos respetivos pais que constituem a matéria-prima, depositando em nós a responsabilidade de tornar os sonhos dos seus filhos uma realidade alcançável, acreditando convictamente nas nossas competências. Este sonho que transparece uma enorme expectativa tem de ser tido em conta e respeitado ao máximo, mais que isso, tem de ser levado como uma responsabilidade acrescida e um objetivo nosso até porque é com a maior satisfação que um treinador olha, um dia mais tarde, e vê o seu trabalho, empenho e dedicação darem frutos, contribuindo para a evolução daquele atleta, aplaudindo com o maior orgulho os objetivos alcançados como, por exemplo, chegar à equipa sénior de uma determinada equipa ou atingir o alto rendimento tornando-se profissional de futebol.

O treinador de excelência de futebol de formação deve, por isso, dominar certas competências especificicas, não só em termos técnicos mas começando até por refletir sobre a sua capacidade e perfil para treinar estas idades, implicando de forma crucial o gosto e paixão pelas crianças bem como um enorme respeito por estas.

Posto isto, sendo que em muitos dos casos os jovens passam mais tempo connosco do que com os próprios pais, é fundamental que o treinador, nestas idades mais tenras, seja um educador não só desportivo, mas também em termos de ética e cidadania. Tem de passar para os atletas o seu compromisso e responsabilidade, revelar organização e pontualidade, a título de exemplo e atendo à minha modesta opinião, o treinador que não tem a preocupação de se apresentar no recinto com uma antecedência de pelo menos quinze minutos antes do início da sessão de treino, não pode desempenhar este cargo pois este tempo é essencial a uma boa preparação da sessão, racionalização do espaço de treino e mesmo receção dos próprios atletas, todas estas competências sobressaem à vista de atletas e encarregados de educação, começando nesse momento a contribuição do treinador para a formação destes jovens. Cabe ao treinador ser um exemplo para os atletas e isto começa pela pontualidade.

Depois destes dois aspetos bem vinculados, vêm outras características que o treinador deve dominar: conhecimento do jogo (os conteúdos que o jogo implica), é fundamental que o treinador, para ensinar futebol, domine perfeitamente os conteúdos de vertente técnica (ações técnicas), vertente tática (princípios gerais e específicos de jogo), vertente física (as capacidades motoras condicionais e coordenativas), vertente estratégica e a vertente psicológica/social/cognitiva; outra das características que o treinador tem de dominar é a definição de objetivos – na formação, este último tópico é parte essencial na reflexão sobre a qualidade do seu trabalho pois se os atletas, individualmente, conseguirem atingir os objetivos definidos pelo treinador, será como que um culminar de um processo, o atingir de uma meta, constituindo até uma realização pessoal enquanto profissional, na medida em que os check-point definidos foram adequados à idade, circunstâncias e nível dos seus atletas, não obstante, atingidos os objetivos previamente definidos, será importante a definição de novos pontos, novas competências a atingir por parte de cada atleta, numa incessante e trabalhosa “corrida” por um alcançar de sucessivas metas que constituem então uma evolução e crescimento contínuos. Acaba por ser um processo de superação constante tanto para treinador em termos de planeamento de treinos cada vez mais exigentes e com sucessivas adaptações ao crescimento dos seus atletas, enquanto jogadores como para os próprios atletas que se veem desafiados constantemente. Perante isto, é importante que se procedam a avaliações da prestação destes jovens por parte do treinador que podem incluir ou não outra área que pode ser considerada na verificação destas permissas, como é o caso do scouting (observação e análise individual). Primeiramente, o treinador deve focar-se no desenvolvimento indivual para depois acrescentar o coletivo.

Uma das coisas que temos de ter também em conta quando trabalhamos com jovens é saber distinguir muito bem o que significa formar e formatar. O importante é formar e não formatar. Os treinadores têm de deixar os atletas tomar as decisões (liberdade criativa) tudo isto englobado numa sensação de felicidade e prazer pela modalidade.

A componente crítica do treinador relativamente ao treino é outra característica de elevado grau de importância – no fim das sessões de treino, elaborar relatórios para obter informações que indiquem o alcançar ou não dos objetivos delineados, tudo isto com o intuito de aprender mais e encontrar soluções para alguns dos problemas que o treino e competição apresentam. Este é um ponto-chave que implica a sintonia e cooperação do treinador e o seu coordenador, sendo que o treinador deve recorrer ao auxilio do coordenador sempre que surja alguma questão ou problema. É fundamental que o coordenador esteja a par do que se faz na sessão de treino ou competição/encontros.

A liderança constitui outro aspeto fundamental e associada a esta temos a motivação, sendo que o treinador tem de ser capaz de cativar ao máximo o seu atleta de modo a que este adquira um comportamento de satisfação e gosto por aprender – a comunicação é um dos fatores essenciais que leva à motivação do jovem atleta. O treinador tem de ser capaz de adotar uma comunicação/feedback que não seja muito elaborado nem de cariz muito técnico para que seja percetível ao atleta. Tem de ser capaz de o elogiar, conversar com ele se notar que algo não está bem, evitar culpabilizar alguém quando ocorrem erros porque o erro faz parte do processo evolutivo e explicar o porquê, como fazer da próxima vez, utilizando sobretudo critérios de êxito numa determinada ação ou momento. Estes são os aspetos a ter em conta quando abordamos o jovem atleta.

Na dimensão técnica, associada também à liderança, está incluída a intervenção do treinador que diz respeito à sessão de treino, desde o planeamento, operacionalização e reflexão/discussão. É fundamental que os exercícios dessa sessão sejam adequados à faixa etária – não vale a pena fazermos exercicios muito complexos para idades tão jovens. Sempre que possível e visto que nem todos os jovens se encontram em níveis de aptidão iguais, devemos fazer exercícios adaptados ao nível de cada um; devemos fazer várias repetições do mesmo exercício de modo a que assimilem todos os comportamentos pretendidos; talvez o mais importante nestas idades seja o contacto com a bola para que os atletas a sintam como parte integrante do seu corpo e assim aumentar a sua prestação em todas as vertentes do jogo; maior tempo útil de prática possível e pausas curtas apenas para hidratação; evitar colocar um atleta muito dotado a nível de aptidão num exercício em superioridade numérica, pois o estímulo não provocará alterações significativas.

Por fim a dimensão caráter, pois não estamos só a formar futuros jogadores de futebol, mas sim Homens. Tão importante como o desenvolvimento técnico e tático, é o desenvolvimento social e cognitivo, o espírito de grupo e cooperativismo – o modo como se relacionam com os colegas de equipa é absolutamente determinante para o sucesso desse jovem atleta. A área da psicologia é importante, é uma mais valia saber e conhecer os comportamentos dos atletas e assim podermos adaptar o nosso (por exemplo, saber como o jovem aprende). Quanto mais cedo conseguirmos cativar a atenção e concentração dos jovens, mais depressa vamos alcançar ganhos em todas as vertentes. De salientar que muitas das atitudes que o atleta toma são consequência de comportamentos nossos e há que ter o máximo de cuidado em determinadas posições que tomamos ou comportamentos que mostramos.

Se estas etapas de desenvolvimento forem bem desenvolvidas, o atleta, quando for competir já tem as bases consolidadas e já se encontra preparado para essa mesma competição. Contudo, a meu ver, só a partir dos quinze anos de idade é que devemos focar no competir para ganhar, dar foco ao modelo de jogo e às questões mais táticas. Até lá é formar atletas e Homens.

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